25.07.09
por Pedro Tavares

Após um conturbado período com Adolf Hitler no poder, a Alemanha passou entre 1967 e 1977 um período intenso de manifestações que o diretor Ule Edel (Eu, Christiane F., 13 anos, Drogada e Prostituída) retrata em O Grupo Baader Meinhof, filme indicado ao Oscar deste ano na categoria melhor filme estrangeiro. Este grupo era liderado pela jornalista Ulrike Meinhof e por Andreas Baader. Esta liderança parte da sugestão do nome do grupo e de fatos históricos, pois na obra de Edel existe um sério problema para posicionar os personagens na trama.
As manifestações eram contra a política de direita encabeçada pelo capitalismo genuinamente norte americano. Contra a exploração de outros países com fins financeiros, esses atos de liberdade na Alemanha cresceram com tamanha intensidade – e brutalidade – que o diretor se confunde em retratar os manifestantes como mitos, mas sem uma proximidade maior e pelo excessivo número de personagens a ganhar foco, assim expandindo essa sensação de liderança e criando uma abstrata idéia de importância de cada integrante para o grupo.
De rebeldes a terroristas, o grupo Baader Meinhof é acompanhado pela estética documental em momentos mais explosivos, emocionalmente falando. Os momentos de ação são construídos no extremo oposto. A aposta funcionaria se Edel não trocasse os pés pelas mãos por transformá-los em um espetáculo tendencioso. Nessas idas e vindas, o filme mostra que falta senso rítmico, numa narrativa tão linear que a saturação do tema é inevitável.
A obra de Edel tem qualidades, principalmente em mostrar a ousadia do grupo, mesmo atrás das grades, mas não preza pela originalidade num assunto bem conhecido pelo cinema alemão,nos últimos anos. O Grupo Baader Meinhof tem seus bons momentos, mas se firma como um pobre romance na fascinação pela rebeldia sem maiores reflexões.
O GRUPO BAADER MEINHOF (Der Baader Meinhof Complex, Alemanha/França/República Tcheca, 2008) Direção: Ule Edel Roteiro: Bernd Eichinger Elenco: Martina Gedeck, Moritz Bleibtreu, Johanna Wokalek, Nadja Uhl Duração:150 min.
Tags: Críticas, Oscar 2009
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09.04.09
por Pedro Tavares
Um estudo da posição étnica, dos estrangeiros e de como o convívio pode levar ao intenso caos dentro de uma escola, esse é o que podemos considerar de Entre os Muros da Escola, filme vencedor da palma de Cannes no ano passado. Logicamente, existem inúmeros “filmes de professor”, mas a construção deste é completamente diferente, como se fossemos um aluno daquela conturbada classe, não uma aventura com final feliz como Mentes Perigosas ou um drama de um professor como em Half Nelson.
Infelizmente, não fugimos dos clichês de personagens, mas na verdade somos todos vítimas dos estereótipos. Mas o que importa ao diretor Laurent Cantet é captar o cotidiano de uma escola, o que leva aos alunos a explodirem dentro da sala de aula, mas sem apelos e sem levar nosso conhecimento para fora da sala de aula. Não acompanhamos a vida dos professores e muito menos dos alunos fora do colégio. Portanto, não existe uma conclusão clara vinda da tela. Mas, na verdade, que conclusão podemos tirar do cotidiano, como meros espectadores?
O professor François Marin, interpretado pelo professor (sim, professor que escreveu o roteiro do filme também) François Begadeau está em uma gangorra emocional e se vê obrigado a segurar as pontas com os alunos e de também não fugir de suas obrigações como professor. Muitas diferenças de costumes existem entre os alunos e isso serve para mais desentendimentos em longos diálogos formais, nos aproximando dos personagens. O que nos cola de vez é o modo frio que Cantet sua a câmera. Ele nos coloca ali, parados, estáticos, sem nenhuma ousadia, somente o uso de cortes nos faz lembrar que estamos acompanhando um filme.
Essa abordagem crua é inteligente, mas também cansa, pois por duas horas, não existe uma mudança do que foi sugerido. Mas deixa mais explícito que relações intensas como as de professores e alunos devem ser medidas como uma moeda, não por pelo julgamento mais óbvio, vindos daqueles que se julgam mais sábios e que parece ser uma bomba, prestes a explodir.

Entre os Muros da Escola (Entre Les Murs, França 2008)
Direção: Laurent Cantet
Roteiro: François Begadeau
Elenco: François Begadeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Juliette Demaille
Duração: 124 min
Tags: Críticas, Oscar 2009
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22.02.09
por Pedro Tavares
Previsível? Sim, mas com o seu charme habitual, a octagésima primeira premiação do Oscar confirmou o favorítismo de Quem Quer Ser um Milionário?, levando o prêmio de melhor filme e Danny Boyle de melhor diretor e papando outros prêmios técnicos, totalizando oito estatuetas para Boyle. Entre o cinema autoral e superproduções, a academia preferiu ficar no meio do caminho.
Outros favoritos também levaram a estatueta como Penélope Cruz por seu papel em Vicky Cristina Barcelona – que não esqueceu de mandar um recado para o seu país – e o prêmio póstumo para Heath Ledger por Batman – O Cavaleiro das Trevas, filme que foi praticamente ignorado em outras categorias. A festa rendeu bons momentos como as perfomances de Hugh Jackman, Jack Black e seus ácidos comentários, Ben Stiller tirando um sarro de Joaquim Phoenix, De Niro falando sobre Sean Penn (mesmo parado como uma estátua, ele seria um ‘highlight’!) e o emocionado discurso de Kate Winslet ao levar o prêmio de melhor atriz por O Leitor, derrotando Meryl Streep, provavelmente essa a maior surpresa da noite, junto com o prêmio dado a Sean Penn por Milk – A Voz da Igualdade, derrotando o favorito Mickey Rourke, mas sem deixar uma menção honrosa ao ator por sua ótima atuação em O Lutador. Já David Fincher não escondia sua cara de desaprovação por levar apenas três prêmios das treze indicações que seu filme O Curioso Caso de Benjamin Button ganhou, no caso, as mais óbvias. Outro que levou apenas o prêmio mais óbvio foi o ótimo Wall-E.
Talvez a melhor parte do Oscar seja conferir os indicados, com um tempo de antecedência, um por um, todos com alto nível de qualidade, sempre proporcionando um início de ano com ótimas surpresas e boas sessões. Muitas injustiças são cometidas pela academia, é verdade, mas convenhamos que é uma decisão difícil de tomar entre várias obras de nível altíssimo de qualidade. Que venha 2010!
Confira a lista dos vencedores e links com as resenhas aqui postadas:
MELHOR FILME – Quem Quer Ser um Milionário?
MELHOR ATOR – Sean Penn por Milk – A Voz da Igualdade
MELHOR ATRIZ – Kate Winslet por O Leitor
MELHOR DIRETOR – Danny Boyle por Quem Quer Ser um Milionário?
MELHOR FILME ESTRANGEIRO – Departures (Japão)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL – “Jai Ho” de Quem Quer Ser um Milionário?
MELHOR TRILHA ORIGINAL – Quem Quer Ser um Milionário?
MELHOR EDIÇÃO – Quem Quer Ser um Milionário?
MELHOR MIXAGEM DE SOM – Quem Quer Ser um Milionário?
MELHOR EDIÇÃO DE SOM – Batman – O Cavaleiro das Trevas
MELHORES EFEITOS VISUAIS – O Curioso Caso de Benjamin Button
MELHOR CURTA (DOCUMENTÁRIO) – Smile Pinki
MELHOR DOCUMENTÁRIO – Homem Equilibrista
MELHOR ATOR COADJUVANTE – Heath Ledger por Batman – O Cavaleiro das Trevas
MELHOR CURTA – Toyland
MELHOR FOTOGRAFIA – Quem Quer Ser um Milionário?
MELHOR MAQUIAGEM – O Curioso Caso de Benjamin Button
MELHOR FIGURINO – A Duquesa
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE – O Curioso Caso de Benjamin Button
MELHOR CURTA (ANIMAÇÃO) – La Maison en Petits Cubes
MELHOR ANIMAÇÃO – Wall-E
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO – Quem Quer Ser um Milionário?
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL – Milk – A Voz da Igualdade
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – Penélope Cruz por Vicky Cristina Barcelona
Tags: Notas, Oscar 2009
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19.02.09
por Pedro Tavares
Nos minutos iniciais de Rio Congelado, o que podemos tirar deles é a imagem da decadência. Essa que está nas entrelinhas que correm por todo o filme. Pela objetiva direção de Courtney Hunt, a bruta edição e pela (quase total) ausência de trilha sonora, o filme sugere uma intensa reflexão.
Perto da fronteira dos Estados Unidos com o Canadá e próxima do território dos índios Mohawk é onde Ray Eddy (Melissa Leo) mora com seus dois filhos. Recém abandonada pelo marido viciado em jogos, que fugiu com o dinheiro que faltava para pagar a última parcela de uma nova casa, ela se vê sem saída. É algo que estamos acostumados a ver no cinema nacional, elevado a centésima potência dramática, recheado de lágrimas ou tiros. Aqui vemos o oposto, mesmo que Ray tenha que partir para uma atividade ilegal para manter suas contas pagas, por acidente.
Enquanto a decadência continua a seguir toda aura do filme, atormentada pelas pressões diárias e do risco de suas atividades junto com a índia Lila (Misty Upham) em uma relação de ódio e interesse, a vida segue. No silêncio, o constrangimento realçado pelas brilhantes atuações. O constrangimento é onipresente, pelas obrigações do cotidiano e pelas regras de sobrevivência criadas.
O natal se aproxima e mais obrigações familiares estão por vir, Ray necessita de dinheiro e de mais riscos. Aos poucos a relação com Lila é retalhada pela submissão das necessidades. Rio Congelado é nada mais que a decadência pela luta de uma sobrevivência que vai contra qualquer comodidade, que surge apenas quando o sonho imposto é realizado.
Ray e Lila por mais que mantenham a distância entre dois abismos na relação, possuem algo em comum, o que é o suficiente para uma identificação e para uma ajuda, mas que parece uma grande falha no roteiro, que foi escrito também pela diretora. Esta que mantém sua objetiva direção por todo o filme, mas que mostra uma falta de ousadia para se alongar em planos ou de movimentar sua câmera.
Fica para o espectador o ato de julgar, já que todos os fatos e lados são mostrados pela diretora sem colocar os personagens em alguma posição fixa. Rio Congelado é um filme que funciona que tem seu roteiro realçado por boas atuações – ambas as atrizes foram indicada ao Oscar – mesmo com pequenas falhas e a falta de ousadia, ele faz o que é mais importante para o cinema: Sugere uma reflexão durante e após o filme.

Rio Congelado (Frozen River, EUA 2008)
Direção: Courtney Hunt
Roteiro: Courtney Hunt
Elenco: Melissa Leo, Misty Upham, Charlie McDermontt, Mark Boone Junior.
Duração: 97 min.
Tags: Críticas, Festival do Rio 2008, Oscar 2009
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17.02.09
por Pedro Tavares
Não é a toa que esse filme virou sensação por todos festivais que passou e nem por ser favorito a levar o Oscar de melhor filme estrangeiro. O aspecto visual de Valsa com Bashir é absurdo e surpreendente. E por se tratar de uma animação a partir de desenhos feitos a mão e fusão de 2-D e 3-D o choque é ainda maior. Tanta beleza e proximidade com a realidade para contar uma história que só pode ser apagada pelos traumas do passado.
A base do filme é a memória. São os massacres ocorridos na guerra do Líbano em 1982 que aterrorizam até hoje. Quando um ex-soldado resolve retomar suas memórias da guerra a partir de um papo com outro companheiro de exército, ele começa a ser perseguido pelo mesmo sonho e vai atrás de quem esteve na guerra para ocupar em sua mente o que a memória fez questão de apagar. Os traumas da guerra apagaram para muitos o que aconteceu naqueles dias.
Infelizmente ele oscila bastante entre a ficção, por vezes acentuando a poesia em meio ao caos, com a narrativa documental, fazendo que tal indecisão leve o filme a oscilar também no ritmo. Entre a beleza do filme e sem peneirar a dor vinda da realidade vivida e a indecisão de qual caminho tomar, infelizmente o filme soa redundante ao colocar os fatos.
Com a redundância, o cansaço é automático e o choque da beleza vinda da tela não é mais o mesmo. Na espera do drama de algo tão profundo, temos o seu ápice: A valsa. Certamente o melhor momento do filme. Pena que ele não foi assim por toda sua duração.

VALSA COM BASHIR (Vals Im Bashir, Israel/Alemanha 2008) Direção: Ari Folman Roteiro: Ari Folman Elenco: Ari Folman, Ronny Dayag, Dror Harazi, Ori Sivan. Duração: 86 min
Tags: Críticas, Festival do Rio 2008, Oscar 2009
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