29.10.09

Mostra de São Paulo: Pequenos Comentários

por Pedro Tavares

RICKY (Idem, França/Itália, 2009) de François Ozon

François Ozon insere em um enredo  fantasioso, a discussão de valores familiares, oportunismo, quebra de privacidade e relações modernas. O diretor tem a noção exata de quando pode esconder ou exibir explicitamente idéias inseridas no subtexto de uma maneira que não atrapalhe a linearidade deste lado – bem bobo, por sinal – do longa que é regido pelas elipses, mas não deixa de ser uma experiência interessante.

2half

O SOLISTA (The Soloist, Inglaterra/EUA/França, 2009) de Joe Wright

Apesar de alguns contratempos no primeiro ato, principalmente para sair de um modelo clássico para pontuar problemas de uma América pós 11/09, o filme de Joe Wright consegue contornar esse impecílio e desenvolve  bem o drama de um morador de rua e um jornalista vividos por Jamie Foxx e Robert Downey Jr., respectivamente. Ambos em ótimas atuações, por sinal. Mas o talento realçado é do diretor, que constrói planos belíssimos, brinca com a parte técnica e usufrui de movimentos de câmera inteligentes.

3half

AMOR EXTREMO (The Edge Of Love, Inglaterra, 2008) de John Maybury

John Maybury mostra sérios problemas para desenrolar a trama em sua primeira metade, quando constrói um quadrado amoroso e tenta fazer um paralelo com a segunda guerra mundial, que ocorre na mesma época. Na segunda metade, a trama se desenvolve com mais facilidade, ganha forças e os conflitos são finalmente posicionados. Maybury consegue, enfim, sugerir que traumas de guerra e traumas amorosos podem ter a mesma equivalência dentro de um histórico conturbado, que é exaltado por Sienna Miller em ótima atuação.

2half

10.10.09

Dançando com o diabo

por Pedro Tavares

dançando

O vencedor do Oscar de melhor documentário por Anne Frank Remembered, Jon Blair coloca a cabeça do espectador como um liquidificador em seu novo filme. Dançando com o diabo foi muito comentado antes mesmo de ser exibido no Festival do Rio por simplesmente não ter uma posição incrustada em suas imagens. Blair mostra, sem intenções sensacionalistas, o dia a dia de chefes do tráfico, policiais e um pastor, que é a única autoridade entre os bandidos e que pode transitar livre e ousadamente pelas comunidades com intuito de salvar vidas já condenadas pelo tráfico e salvar a vida dos traficantes, espiritualmente falando.

Ao se infiltrar no dia a dia do tráfico e apresentar à intimidade de nomes como Tola e Aranha, Blair nos mostra uma nova imagem para um estereótipo criado pelas situações extremas de violência nas grandes metrópoles. Em geral, eles gostariam de se livrar dessa vida. Os policiais, talvez por ordens superiores, gastam o tempo com inutilidades que os “funcionários” do tráfico resolverão em poucos minutos. A tensão dos policiais é imensa e a sensação é de ter a morte caminhando ao seu lado diariamente, como um deles diz em certo momento do filme.

Blair acerta por desconstruir esses personagens através dos dias e nos mostra que atrás de poses, armas, complexidades, contradições e medalhas, existe um sonho de mudança usando um ponto em comum nos três pólos estudados: A fé. O pastor Dione tem a missão de mudar a vida dos traficantes através da palavra de Deus. Foi bem sucedido em algumas obras e conseguiu selar a paz entre algumas comunidades, mas ainda tem o dever de salvar vidas que anteriormente teriam um final trágico, que agora a partir de um acordo com Aranha, chegam à igreja gravemente feridos, mas com uma segunda chance: a de achar um novo caminho para viver. Os policiais, apesar da dedicação e da adrenalina, tem a grande mancha criada pela má índole de alguns companheiros. Fora a obrigação de manter a segurança e a paz em locais perigosos, a luta também é para reverter um quadro criado pela sociedade. Os traficantes lembrarm que fazem parte de uma indústria, que cria empregos para pessoas que não tiveram oportunidades e suporte do governo, que segundo eles, também está interessado no dinheiro gerado pela venda de drogas quando investem em armas, carros blindados e deixam pessoas morrendo nos hospitais. Eles, se pudessem, sairiam dessa vida, apesar da estabilidade financeira. O preço da liberdade para eles é alto e o risco de perder a vida a qualquer momento os coloca em um estado de alerta e tensão eterno.

Apesar de um fechamento pessimista, o que vale no trabalho de Blair, é  a nova proposta para mostrar o terror na cidade do Rio de Janeiro por quem está no meio dele, sem acusações ou estudos maiores sobre a falta de recursos e ajudas governamentais. Cada um, a sua maneira, ajuda a manter a paz nas comunidades, com intenções distintas. As conseqüências são mostradas por Blair em seus minutos finais. O espectador, leva consigo uma mente borbulhando com questões existenciais e sociais.

4star

DANÇANDO COM O DIABO (Dancing with the devil, Inglaterra, 2009) Direção: Jon Blair Roteiro: Jon Blair Elenco: Pastor Dione, Márcio “Tola” da Silva Lima, Juarez “Aranha” da Silva, Leonardo Torres Duração: 105 min

09.10.09

Corações em Conflito

por Pedro Tavares

corações

Lukas Moodysson pincela problemas contemporâneos sem criar ou se afundar um dramalhão em Corações em Conflito, filme que mostra a vida moderna como uma faca de dois gumes.  O sentimento guia do filme de Moodysson é a insatisfação e talvez, a insegurança. Insatisfação que todos os humanos contemplam em algum momento da vida: quem trabalha, quer o tédio. Quem vive entediado, quer trabalhar. Quem tem pouco, quer ter muito. Quem tem muito, quer viver de maneira mais simples.

Leo, vivido por Gael Garcia Bernal mostra o lado fácil de enriquecer com pouco trabalho, através da tecnologia e novas dependências dos humanos. Num choque de culturas, Moodysson faz uma espécie de Babel, menos politizado e mais humano. O diretor vai dos Estados Unidos até as Filipinas para mostrar um outro extremo e ligando as realidades através do afeto e com uma bela metáfora através de um elefante. A necessidade de tal sentimento é o laço entre os dois pólos, mas que claramente se ligam através dos interesses financeiros, pois o emocional, é apenas uma forma de se manter empregado, com salário em dia.

Entre crises de insônia e noites exaustivas de trabalho de Ellen, esposa de Leo, vivida pela excelente Michelle Williams, nos perguntamos se é realmente válido e necessário se desgastar tanto para ter uma boa renda, se não tem tempo e saúde para aproveitar a vida e nem ver os filhos crescerem. Nas Filipinas, vemos o lado inverso. Chances são quase nulas e as saídas podem ser radicais. A modernidade por Moodysson é colocada de uma maneira interessante, mas não menos reflexiva e serve como um grande alerta para uma mudança, apesar do lamentável tropeço nos minutos finais.

3half

CORAÇÕES EM CONFLITO (Mammoth, Suécia/Dinamarca/Alemanha, 2009) Direção: Lukas Moodysson Roteiro: Lukas Moodysson Elenco: Gael Garcia Bernal, Michelle Williams, Marife Necesito, Sophie Nyweide Duração: 120 min

Aquário

por Pedro Tavares

aquário

No subúrbio inglês, a diretora Andrea Arnold mostra que a influencia direta da mídia pode causar danos irreversíveis, enquanto desconstrói um sentimento claustrofóbico que faz uma clara metáfora com o título do filme. O sentimento vem de Mia, menina de quinze anos que faz as decepções rotineiras evaporarem pelos poros através da dança.

Mia é fruto de um lar disfuncional. Claramente criada pela TV e pela música, ela e sua irmã trocam farpas e xingamentos por motivos banais diariamente. Os valores distorcidos já são aparentes desde o início do filme. Ela se comporta como adulta.  Entre cenas de brigas e uso de drogas, o cinema de Larry Clark é lembrado, mas a comparação se esvairece em poucos minutos. Enquanto as meninas crescem rápido demais, a mãe faz o caminho inverso; faz festa diariamente, não procura as filhas e está mais interessada em garotos. Este amadurecimento de Mia talvez seja um simples instinto para não seguir o exemplo dado em casa, até mesmo para tratar o novo namorado de sua mãe, mas sua imaturidade é exaltada em momentos extremos.

Mia desce a ladeira na busca de uma saída, mesmo que possa parecer errado, o que importa é sair deste aquário, onde ela parece viver numa competição onde o ego é o ponto de largada. Andrea Arnold nos dá a sensação de acompanharmos a história pelas costas da garota, correndo junto com a menina com o exacerbado uso de steady cam e em over shoulder, mas principalmente quando as silhuetas dominam a tela.

A sensação que transparece é que tudo que Mia toca, morre. O sentimento pela família, pelos amigos, os sonhos e até mesmo por um indefeso cavalo, terminam de forma trágica. Quando se depara pela tão almejada vida adulta, ela percebe o quão nova é nessa altura que o aquário pode ter o seu valor ou realmente esquecido. Insegurança essa que a diretora também carrega em si para construir o seu filme quando se estende em detalhes já captados pelo público.

3half

AQUÁRIO (Fish Tank, Inglaterra, 2009) Direção: Andrea Arnold Roteiro: Andrea Arnold Elenco: Katie Jarvis, Kierston Wareing, Michael Fassbender, Harry Treedaway Duração: 123 min

07.10.09

Maradona

por Pedro Tavares

maradona

O diretor sérvio Emir Kusturica acerta quando escolhe estudar o lado mais obscuro do maior ídolo argentino, o ex-jogador Diego Armando Maradona. Quando digo “obscuro”, não me refiro aos escândalos envolvendo os vícios e brigas do ex-jogador, mas por tocar em assuntos esquecidos pela mídia e fazer o jogador refletir sobre sua vida numa espécie de análise itinerante.

Seria óbvio demais – mas não menos interessante – fazer um documentário contando a história do jogador com intuito de colocá-lo em uma posição que ele nunca saiu: a de herói. Kusturica compara sua carreira de diretor e métodos de filmagens com o comportamento de Maradona. Seja pelas inseguranças e os prós e contras de ser um documentarista ou através de metáforas, o diretor mostra suas identificações com o seu personagem principal. Segundo o diretor, se Dieguito não fosse um craque dos gramados, seria um grande revolucionário. A sede de justiça e senso político do ex-jogador parece ser o novo guia de sua vida. Ele afirma que pequenos países podem se vingar de tantas injustiças através dos esportes e lembra a incrível vitória da Argentina contra a Inglaterra durante a copa do mundo de 1986, que serve como alvo para Kusturica abrir diversos assuntos sobre a vida do jogador e suas reflexões.

Pela voz-off, Kusturica conta suas conclusões sobre esta figura peculiar que até uma igreja ganhou. O casamento pela igreja “Maradoniana” é surreal. Mesmo com esta forma interessante, o filme dá alguns tropeços por largar cenas avulsas, sem um norte para o público ter como guia, nem posição emocional, nada. As cansativas inserções de animação de Maradona fazendo justiça com os próprios pés também tiram o bom ritmo do filme, que busca apenas mostrar como Maradona é, sem procurar respostas e muito menos motivos para atitudes e escolhas do jogador. Maradona abaixa sua faixa de ídolo para mostrar que é feito de carne e osso, que tem fraquezas e que também erra por escolha própria, sem sensacionalismos maiores.

3star

MARADONA (Maradona by Kusturica, Espanha/França, 2008) Direção: Emir Kusturica Roteiro: Emir Kusturica Elenco: Diego Armando Maradona, Emir Kusturica,  Lucas Fuica  90 min

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