21.08.10

Cabeça a Prêmio

por Pedro Tavares

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Marco Ricca dispensa a tradicional sede que diretores debutantes vêm ao pote em Cabeça a Prêmio. Em execução, o diretor mostra que sabe bem o que faz.  Mas para transferir a obra de Marçal Aquino que retrata a decadência de uma família burguesa que vive graças a atividades ilegais para a tela, o roteiro problemático se sobrepõe aos olhos afiados da direção.

A impressão é que Ricca tenta justificar a presença de vários personagens e ligá-los à trama naturalmente, mas cai na armadilha da previsibilidade. Perto do epílogo, Ricca ainda corre para apresentar personagens. Para isso, a omissão de fatos é saída mais urgente e se desprende da intenção inicial, que era de seguir o caminho existencialista numa trama que inevitavelmente cai numa rede de crimes.

O grande suspiro do longa está em sequências que nos imergimos na decadência dos personagens, todos completamente contaminados por um sentimento que não sabem descrever. Cada um tem sua forma de descontar esta espécie de frustração, e assim, é possível se aproximar deles. Pena que são raros os momentos que Ricca não confunde este bons momentos com a necessidade de criar uma narrativa linear.

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CABEÇA A PRÊMIO (Idem, Brasil, 2009) Direção: Marco Ricca Roteiro: Felipe Braga e Marco Ricca Elenco: Fulvio Stefanini, Alice Braga, Eduardo Moscovis, Cassio Gabus Mendes Duração: 104 min

25.05.10

Olhos Azuis

por Pedro Tavares

Totalitarismo, remorso e a busca por redenção guiam a narrativa de Olhos Azuis. Por mais contemporâneos (e de certa forma batidos) que tais assuntos possam ser, existe algo a mais no filme de José Joffily. Não só a coragem para peitar uma força chamada Estados Unidos da América ao mostrá-los com autoritarismo exacerbado na relação com estrangeiros, em especial, os da América Latina. Não é preciso sair da sala de departamento de imigração, onde os latinos buscam uma carimbada em seus passaportes e que autorizem a entrada na “terra das oportunidades”. De personalidades distintas e muito bem construídas, os policiais aqui têm o poder absoluto sobre o futuro de cada um que está na sala de espera.

Intercalando com esta sistemática que oferece aos policiais diversão durante o horário de trabalho, vemos a busca do policial Marshall em terras brasileiras pela filha de um homem que estava na sala de imigração. Aos poucos, Joffily vai construindo um quadro sócio-político brutal que envolve diversos aspectos. Por outro lado, o diretor mostra a entrega de um homem às suas fraquezas e sua última chance de redenção. A pose de um homem invencível dada por um núcleo é desfigurada pelo outro. O grande trunfo dessas duas esferas é que o diretor consegue fazer dois filmes diferentes, com dois gêneros diferentes. A primeira, um thriller explosivo, social. A segunda, um road movie contemplativo.

Ao fragmentar o filme dessa forma brusca, irregularidades no ritmo do filme parecem inevitáveis. Principalmente por se tratar de uma interação crescente à respeito de informações sobre Marshall. De qualquer forma, as intenções de Olhos Azuis são claras e bem sucedidas. Conflitos externos são comedidos na medida certa e os internos suficientemente implícitos para transformar o filme em entretenimento e fonte para reflexões.

O filme estreia na próxima sexta (28).

4star

OLHOS AZUIS (Idem, Brasil, 2009) Direção: José Joffily Roteiro: Melaine Diamantas e Paulo Halm Elenco: David Rache, Cristina Lago, Irandhir Santos, Valeria Lorca Duração: 111 min

23.04.10

Sonhos Roubados

por Pedro Tavares

Baseado no livro “As Meninas da Esquina”, de Eliane Trindade e com roteiro que conta com colaborações de Paulo Halm, José Joffily e Adriana Falcão além da própria diretora Sandra Werneck, Sonhos Roubados é um filme que reflete as condições sociais do país usando uma favela como referência. Delicado, afinal trata-se de uma fórmula batida no cinema nacional. Mas o que faz do filme ser totalmente diferente é por ser implícito em suas sugestões. O cotidiano de Jessica, Sabrina e Daiane aos poucos vira a representação de um catalisador interior, da necessidade de ser alguém, enfim, de realizar sonhos, estes que não são citados em momento algum do filme, mas são comuns entre todos nós, que para elas, podem chegar mais perto por um caminho alternativo.

Vindas de lares destruídos e órfãs, as meninas sobrevivem ao que lhe é oferecido. Na adaptação vemos os desejos, o peso de ganhar responsabilidades gigantescas sob a comum imaturidade da idade e a necessidade de se sentir notada, que pode ser confundida com a vaidade, pois estamos falando de três meninas, mas é notório que vai muito mais além que um cabelo liso e pintado ou um vestido curto. A diversão para elas se confunde com a obrigação e ganha forças terapêuticas para o ego e para o bolso, sem remorsos.

Se toda força de Sonhos Roubados vem do interior de seus personagens enquanto registra uma rotina que poderia colocá-las como coitadinhas, Sandra parece pesar na hora de exteriorizar tais sentimentos, pois todas, com exceção da pequena Daiane, não parecem ter uma personalidade definida e sim moldadas a partir de um estereótipo, o que fica mais claro quando estão em cena com outros personagens. As sequências parecem tentar arduamente que suas protagonistas ganhem forças suficientes para tornar o filme numa história particular e principalmente convincente, algo que a perspectiva lúdica e não tão didática adotada pelo subtexto do filme dominava com tamanha autoridade.

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SONHOS ROUBADOS (Idem, Brasil, 2009) Direção: Sandra Werneck Roteiro: Adriana Falcão, Paulo Halm, José Joffily, Sandra Werneck Elenco: Nanda Costa, Marieta Severo, Amanda Diniz, Kika Farias Duração: 85 min

15.03.10

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos

por Pedro Tavares

Pequenas peculiaridades constróem Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos. O longa que marca a estréia de Paulo Halm na direção, tem uma poderosa veia cômica, porém, não se assume como uma comédia. Apresenta conflitos e devaneios emocionais de seu protagonista, mas também não veste a camisa de um drama existencial. Assim, fica clara a intenção de Halm de unir gêneros dentro de um mesmo texto. Quando o jovem e inativo escritor Zeca é aterrorizado pelo fantasma da infidelidade, sua estagnação vira o céu e o inferno, representados pela Lapa, berço da boemia carioca.

Se tal paralisação criativa coloca Zeca numa posição submissa ao acaso (este sempre disposto a acionar a bomba que é a mente libidinosa do rapaz), o mesmo não se pode dizer quando a neura permite exibir todas suas fraquezas. É aí que Paulo Halm abusa do humor, criando cenas memoráveis, explicitando a catalisação das frustrações de Zeca, principalmente quando o escritor está com seu frio, monossilábico, plúrimo e totalmente identificável pai, vivido por Daniel Dantas de forma excepcional.

Se o lado cômico é pulsante, Halm estuda os sintomas do desespero de forma mais singela, os usando às vezes como escada para o riso e não se limita a fronteiras, abusando de referências da cultura brasileira; por vezes ele as chacota, outras são estampadas pelo diretor como uma espécie de resgate de costumes que a violência das grandes metrópoles nos impede de cultivar. Em certo momento do filme, Halm consegue congregar em uma mesma sequencia a decadência, funk carioca, humor pastelão e o poeta francês Charles Baudelaire sem parecer pretensioso.

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos desconstrói a urgência contemporânea de amar e se sentir amado, mesmo que isso só alimente um sentimento vazio, mas sem colocá-lo sob uma visão pessimista. Na verdade, em todo seu envolto, o filme de Halm é uma divertida contemplação sobre esse desespero e que ao mesclar elementos de variados gêneros, consegue trazer frescor ao cinema nacional.

4star

HISTÓRIAS DE AMOR DURAM APENAS 90 MINUTOS (Idem, Brasil/Argentina, 2009) Direção: Paulo Halm Roteiro: Paulo Halm Elenco: Caio Blat, Daniel Dantas, Maria Ribeiro, Luz Cipriota Duração: 93 min

25.02.10

O Segredo dos Seus Olhos

por Pedro Tavares

Alguns eventos são devastadores em nossas vidas. Deixam tantos rastros que por vezes é impossível viver o presente. Mas para deixarmos o passado literalmente para trás, enfrentar seus fantasmas seja a melhor maneira. A premissa que O Segredo de Seus Olhos carregava era de um filme sobre um acerto de contas, mas ao fragmentar o tempo na narrativa não apenas para registrar a redenção de um homem, mas para discutir leis e valores dentro de um thriller, a adaptação do romance de Eduardo Sacheri ganha novas interpretações.

O diretor Juan José Campanella bebe da decadência característica dos personagens dos filmes noir e do ritmo de filmes de ação americanos para traçar uma trama completa e claustrofóbica. Nela, a pena de morte é citada em alguns momentos, mas é atrelada a cada quadro do filme que também discute o abismo entre as palavras “existência” e “vivência” com bons diálogos e movimentos de câmera precisos.

Mas Campanella se importou apenas com o lado ativo. Por isso, O Segredo de Seus Olhos é um filme que se preocupa em condensar ritmo e intensidade dramática, com subtexto pesado, mas não menos instigante que o thriller que digerimos. Para viver, passamos por momentos extremos, intensos, onde tomamos decisões precipitadas e colhemos seus frutos. Existe o tempo para o arrependimento e a busca de um novo caminho, para outros, a existência torna-se um martírio por viver cativo das conseqüências de seus atos.

Em certo momento do filme, a torcida grita “academia” diversas vezes em um estádio de futebol, já profetizando a indicação do filme ao prêmio de melhor filme estrangeiro na cerimônia do Oscar. Coincidência ou não, o filme tem tudo que a academia gosta: é um filme que agrada a quem digere uma obra aos poucos de forma contemplativa (por enriquecer o subtexto e suas tramas paralelas) e também aqueles que procuram um filme como uma diversão escapista (um thriller bem amarrado e romanceado). Pena, que no meio do caminho, havia uma fita branca…

4star

O SEGREDO DE SEUS OLHOS (El Secreto de Sus Ojos, Argentina/Espanha, 2009) Direção: Juan José Campanella Roteiro: Juan José Campanella Elenco: Ricardo Darín, Guillermo Francella, Soledad Villamil, Pablo Rago Duração: 127 min

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