08.07.09

Guerra Sem Cortes

por Pedro Tavares

Já em seus minutos iniciais, Brian De Palma desmancha tudo que construiu em muitos anos dirigindo filmes. Declara que seu filme Guerra Sem Cortes não é para ser um produto emotivo hollywoodiano e sim, um retrato próximo do que se passa pelo Iraque, assunto já saturado pelo cinema desde os ataques de 11 de setembro e não poupa críticas para filmes que exploram a tragédia com a intenção de faturar nas bilheterias.

Da típica elegância dos outros filmes de Brian De Palma, vemos o diretor ir para outro extremo, escolhendo as câmeras digitais para guiarem os dias de angústia dos soldados e o uso de referências modernas como a internet para informações e protestos se proliferarem pela rede mundial de computadores.

Desse tédio e dos costumes americanos, vemos o crescimento de atitudes radicais dos soldados que já tem suas raízes fincadas na violência e como uma saída mais eficiente para momentos de paz. As necessidades dos soldados também em crescente urgência acabam em saídas chocantes, fora a cansativa relação entre eles e o gratuito ódio gerado contra os Iraquianos, que nada podem fazer numa situação que está totalmente dominada pelos americanos, que na verdade, nem sabem o que estão fazendo ali.

Já convictos da absolvição, o que resta a eles são os traumas e a luta pela justiça do próprio coração, pois a justiça sugerida por George W. Bush é feita com excelência. Brian De Palma consegue dominar seu filme, mesmo com um elenco perdido e a linguagem quase documental, que faz o filme perder forças a todo o momento, mesmo que essa aposta seja para fugir de um clichê do cinema americano.

GUERRA SEM CORTES (Redacted, EUA, 2007) Direção: Brian De Palma Roteiro: Brian De Palma Elenco: Izzy Dias, Patrick Carroll, Rob Devaney, Ty Jones Duração: 90 min

02.07.09

Import Export

por Pedro Tavares

A característica apatia usada por Ulrich Seidl agora mostra para o resto do mundo o que o leste europeu parece esconder em uma condição muito conhecida pelos brasileiros:  A falta de oportunidade, sob um olhar demasiadamente negativo.

Acompanhamos a história de Olga e Pauli, dois jovens sem perspectiva de um futuro frutífero. Olga se sustenta a base de empregos alternativos fora o de enfermeira, que certamente o mantém para criar uma imagem imposta pela sociedade, pois seu trabalho como stripper pela internet é mais rentável. A infelicidade a domina e a leva para uma aventura na Áustria. Já Pauli faz o caminho inverso. Sem emprego e vivendo num país que ainda escuta os ecos da segunda guerra, viaja com seu padrasto levando máquinas caça níqueis para a Ucrânia.

Ulrich continua a manter o que o consagrou em Dias de Cão. Sua direção é levada pelas emoções, mas sem nenhum esforço em criar elos com seus personagens e os espectadores. Ulrich impõe duras críticas em cenas que podem parecer avulsas, mas na verdade são de uma força extrema maior que uma narrativa mais didática nos ofereceria, calçada em imagens que se utiliza de uma beleza fotográfica incrível, mas seus elementos e personagens de cena são completamente arruinados ou colocados na posição de ridículo, deixando explícita a idéia pessimista vinda do diretor.

Nesta fantasiosa esperança por uma vida melhor, principalmente no lado de Pauli, que é obrigado a aturar seu padrasto que se ilude a todo momento com uma boa vida, vemos uma urgência da parte dos protagonistas, que aparentemente usufruem de histórias opostas, mas ligados pela ilusão extrema que os colocam – pelo desespero – na mesma situação.

Em cenas que o pudor é deixado completamente de lado, cada personagem exibe sua desconfortável relação com a rotina e o novo idioma. E onde cada suspiro de uma nova vida é devidamente cortado por um abrupto golpe do destino, isto é, o destino é o nome dado para a previsibilidade de vidas que não conseguem ver para onde remar, para onde seguir. O que o diretor Ulrich Seidl deixa claro para nós é que Import Export é um intercâmbio da miséria, não necessariamente financeira, pois parece que o vazio dentro de seus personagens vai muito além do vazio dos bolsos.


IMPORT EXPORT (Import/Export, Austria, 2007) Direção: Ulrich Seidl Roteiro: Ulrich Seidl e Veronika Franz Elenco: Ekateryna Rak, Paul Hofmann, Michael Thomas, Natalya Baranova Duração: 135 min

26.06.09

Romance

por Pedro Tavares


O espetáculo que é o amor. Tragédia, comédia, seja lá o que for, é uma necessidade para cada ser humano. E assim, Guel Arraes utiliza o romance de Tristão e Isolda como referência e guia de seu longa Romance estrelado por Wagner Moura e Letícia Sabatella.

Na inconstante e instável dicotomia de gêneros e colocando as artes em um patamar de igualdade (leia-se TV, teatro e cinema) o filme não se insere explicitamente em nenhum deles na verdade. Se ele vive no núcleo mais descontraído – e ousado por criticar métodos televisivos, com a ajuda de Jorge Furtado – liderado pela ótima Andrea Beltrão, Wladimir Brichta e reforçado por Marco Nanini ou se apóia no drama guiado pela peça de teatro em que Pedro (Wagner Moura, excelente) e Ana (Letícia Sabatella, forçada até quando finge interpretar) produzem para o estopim de uma relação cheia de inseguranças e uma paixão desenfreada que fica por trás das cortinas do teatro.

E pelo sucesso de Ana, que vira uma celebridade graças a TV e a escolha mais radical de Pedro, que os dois se separam e colocam a questão do amor em cheque. O sofrimento, a felicidade, o tédio. Tudo é colocado em pauta, de uma forma peculiar e inteligente, que foge do convencional, mas consegue inserir todos os clichês possíveis de um romance, sem apelos.

Por outro lado, a veia cômica parece ser avulsa e consegue levar o filme a um patamar completamente inesperado, com as já citadas críticas que na verdade não convencem, mas como piadas servem muito bem entre diálogos rápidos e impactantes, essa quebra de narrativa do filme não fica bem clara.

Arraes tenta fugir do convencional e consegue, mas não justifica bem o seu objetivo, se por ousadia, crítica a métodos prontos ou se é, apenas, um conto de amor, com a clássica “pitada brasileira”.

ROMANCE (Idem, Brasil 2008) Direção: Guel Arraes Roteiro: Guel Arraes e Jorge Furtado Elenco: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andrea Beltrão, Wladimir Brichta Duração: 105 min

25.06.09

Leonera

por Pedro Tavares

A constituição familiar dentro de uma cadeia. Pablo Trapero consegue carregar de detalhes em pequenos planos e também em diálogos soltos para futuros ganchos em Leonera, filme que tem sua força concentrada nas reviravoltas do roteiro em um mundo exclusivamente feminino.

Quando Julia é condenada por um crime de precedentes duvidosos e vai parar na cadeia de uma maneira apática. Lá, ela desarma os dias a espera de seu filho, conseqüência de uma relação também duvidosa. O que pode ser o retrato de uma vida sem futuro tem sua chama acesa quando o pequeno Tomás vem ao mundo. A partir daí o que se vê é o amadurecimento de uma mulher, jorrando instinto e a necessidade materna de criar seu filho, com a atriz Martina Gusman brilhando, num filme que é apenas seu.

Mas Leonera parece ser uma história de lacunas. Julia tem grandes buracos em seu peito quando se relaciona com a mãe e com Ramiro, amante de seu ex-namorado, motivo para sua ida a cadeia. Estes buracos que ela reservou para ser preenchido pelo pequeno Tomás e mais ninguém. Um mundo que ela planejou apenas para os dois. Alimenta-se do vazio para se colocar no passado e de um possível trauma retratado no cotidiano do sistema carcerário.

Trapero acerta em manter-se longe de uma óbvia vulgaridade na necessidade da sobrevivência e colocando o sistema carcerário apenas como pano de fundo para problemas e relações mesmo que seja em extremos e saídas que podem custar caro para a narrativa, fazendo que o filme perca sua força em certos momentos, ela ainda soa coerente.


LEONERA (Idem, Argentina/Coréia do Sul/Brasil, 2008) Direção: Pablo Trapero Roteiro: Alejandro Fadel e Martín Mauregui Elenco: Martina Gusman, Rodrigo Santoro, Elli Medeiros, Laura García Duração: 113 min

15.06.09

A Festa da Menina Morta

por Pedro Tavares

Até onde os seus hábitos são certos e os meus são errados? O que uma doutrina e valores impostos e até mesmo criados podem fazer pelo escape de tamanha dor e vazio sob um povo sofrido? A Festa da Menina Morta do estreante na direção Matheus Nachtergaele vai além de um retrato sofrido da população brasileira e os embala sob questões espirituais e da necessidade de se apoiar em algo e alguém.

É um filme que também faz pesar a quem está assistindo. Matheus usa as duas pontas de uma gangorra na mesma cena por diversas vezes e coloca o espectador em cheque para qual lado seguir, dando a opção de você ser um sádico ou não. Se estamos sob a manta espiritual que guia o filme ou pela carne, aumentando nossas dúvidas sobre a conduta de Santinho, vivido pelo excepcional Daniel de Oliveira.

Sob um jogo de câmera esplendido, tão delicado e faz o espectador se mover e por vezes sob um nauseante estado de espírito, o filme consegue passar pelo que modelo de desdramatização ala Tchekov, mas também, vai além e utiliza de metáforas nada agradáveis aos olhos e um lado introspectivo, criado por sua construção narrativa.

A Festa da Menina Morta no fim das contas é o canto de desespero por uma vida melhor, pois sem opções, quem não olharia para o passado ou quem não inventaria histórias? É um retrato de um país tão perdido como o nosso, mas que precisa ter provações a todo o momento.

Mesmo que passe pela excentricidade e pelo exagero diversas vezes, o filme tem uma peculiaridade e ele não passa dos limites no que é mais valioso pro filme: A fidelidade com os costumes do povo.  Debaixo de uma direção coesa e almejando um futuro como diretor, Nachtergaele nos brinda como um filme mais do que necessário para o cinema nacional, indo além de um padrão e de uma linguagem já saturada.

A FESTA DA MENINA MORTA (Idem, Brasil, 2008) Direção: Matheus Nachtergaele Roteiro: Matheus Nachtergaele e Hilton Lacerda Elenco: Daniel de Oliveira, Cassia Kiss, Jackson Antunes, Dira Paes Duração: 110 min

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