Subtende-se Algo?: A Forma e o Objetivo do Cinema segundo Jean Mitry

28 de novembro por Pedro Tavares | Nenhum comentário

Por Márcia Freddy

A FORMA E O OBJETIVO DO CINEMA SEGUNDO JEAN MITRY

O pluralismo do próprio Mitry em questões de estilo poderia, sem dúvida, levar-nos a uma determinada semelhança sobre a estrutura cinemática, se nenhum recurso estilístico a qual pudesse reivindicar a prioridade natural sobre os demais, que por alguma razão não criaram ou deram determinados valores de igualdade.

Como historiador do cinema, Mitry examinou e estudou as diversas formas cinematográficas e, é claro, não pôde deixar de criticá-las de forma bastante anticinemáticas. Em questões de estilos, por exemplo, é nítido seu desdém por certos filmes que apresentaram descaradamente conceitos considerados expressionistas ou que foram baseados por alguma razão em uma estrutura abstrata. Esses filmes recusavam as possibilidades estilísticas naturais presentes no cinema como um todo, e tentavam criar uma espécie de “pintura cinemática”, no primeiro caso, e de “música cinemática”, no segundo.  A terceira “tentação” do cinema veio do teatro. Mesmo na primeira década de sua existência, o cinema tomou um caminho fácil de copiar as estruturas dramáticas das peças, e nunca – jamais -superou inteiramente sua obsessão com relação a seu rival mais velho e mais respeitado.  O ataque de Mitry a esse aspecto da influência teatral não é diferente de sua rejeição ao expressionismo e ao cinema abstrato. Em cada caso, uma análise atenta dos casos históricos mostra o cinema tentando adquirir o estilo de outra arte, eliminando o método natural e o poder do estilo cinemático (Mitry se opunha a dramaturgia cinemática a isso e em quase todos os aspectos).

O cinema como forma integra do homem assim como seu discurso natural, estivera presente nas concepções apresentadas por Balázs e Bazin, muito antes dele, e que frequentemente salientaram que o teatro retrata o drama do homem contra o homem ou até do homem contra Deus, mas de um modo geral retrata o drama do homem e do mundo. Esse fato gerou consequências enormes, poisestruturamente o cinema está muito mais próximo, em natureza, do romance. Muitas das afirmações que hoje fazemos sobre cinema foram feitas sobre o romance quando ele se desenvolveu no século XVIII. Ou seja,desde o início foi considerado uma forma “profana” que estimulava a curiosidade natural das pessoas sobre o modo de como as coisas funcionam. Ou seja,caracterizando-as pelo discurso ainda mais comum. As amplas redes de interdependência que existiam subjacentes a todas as situações, as ressaltaram de maneira artística.

Tendo como palavra final, o cinema é a arte em que nossas percepções adquirem significado e valor. Se o romance nos faz sentircerta interdependência do homem ao homem ou dos homens ao mundo, o faz de modo muito abstrato, através de palavras e figuras do discurso; o cinema, por outro lado, o faz através do processo normal da percepção bruta. O cineasta escolhe determinadas percepções brutas simplesmente com o propósito de formar um completo mundo cinematográfico próprio, podendo fazer esse mundo irradiar significados bem além de si mesmo se tirar vantagem de todas as implicações de seu material, transformando-o através de seus “códigos poéticos”. Nos maiores poemas cinematográficos, nós, como “espectadores-participantes”, compartilhamos um mundo complexo que nos transmite um amplo significado humano maisque através do qual sempre podemos reconhecer a ocasionalmente a realidade que experimentamos todos os dias. O cineasta dá à realidade uma língua, mas uma língua que fala as palavras do cineasta. A realidade então participa de sua própria apoteose, sendo transcendida pela mestria do cineasta, mas nunca sendo totalmente consumida no processo. Sem essa tensão entre uma realidade bruta, que sempre reconhecemos, e o significado humano que ela é obrigada a transmitir novamente em cada filme, o cinema neste instante perde seu poder.

A teoria de Mitry com um todo é uma teoria considerada por muitos (inclusive por mim apesar de discordar com a maioria das ideias apresentadas por ele) genuinamente sintética. Ele de certo modo conseguiu manter uma concepção que acomoda a “abertura ao Ser” apresentado por Bazin, embora insistindo em que o Ser só se torna significativo a partir do instante em que o próprio homem o transforma através de todos os recursos, poderes e limitações sob seu comando. Nessa aventura, o cinema é seu maior instrumento, pois emborahaja como uma percepção um tanto natural, constrói um outro mundo, talvez mais intenso do que a própria percepção natural.

Os novos significados de volta a realidade nos enriquecem, pagando de maneira inexaurível ao mundo em que atualmente vivemos.

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