Festival 4+1

21 de novembro por Pedro Tavares | Nenhum comentário

Aconteceu durante o mês de outubro no Rio de Janeiro o Festival 4+1, responsável por levar às telas do Centro Cultural Banco do Brasil filmes autorais premiados que não ganharam distribuição por aqui. Portanto, nomes como Takeshi Kitano, Naomi Kawase e Kelly Reichardt tiveram filmes exibidos. Nós conferimos alguns filmes da programação:

MEEK’S CUTOFF (Idem, EUA, 2010) de Kelly Reichardt

No momento em que os Estados Unidos chegam ao ápice da intolerância, Kelly Reichardt (Wendy e Lucy) volta no tempo para analisar o desenvolvimento desta chaga social. Amedrontados pela figura de um índio, um grupo de cristãos atrás de água no deserto logo se tornam metáforas ambulantes de Reichardt. O delírio oriundo do calor, a posição pastoral de Meek e a dependência do índio para chegar ao destino desejado refletem a imparcialidade do diretor ao analisar a contemporaneidade. Mesmo derrapando em diversos clichês melodramáticos, o filme guarda sua pungência em sua narrativa silenciosa.


MY JOY (Scatje Mojo, Ucrânia, 2010) de Sergei Loztnitsa

O paralelo entre o martírio – aqui transparecido para o vigor físico de Georgy (Viktor Nemets) – vivido pela Rússia e seu protagonista, vítima de abuso de autoridade e do azedume de moradores de um vilarejo marcados pela guerra sintetizam a escolha de Sergei Loznitsa em seguir um método que se distancia dos personagens para realçar a angústia de um tempo difícil. My Joy é um exercício contemplativo, duro e necessário.


OUTRAGE (Autoreiji, Japão, 2010) de Takeshi Kitano

Quando diversas facetas da máfia japonesa resolvem lidar com negócios paralelos como tráfico de drogas e prostituição, uma sequência de mal entendidos gradualmente transformam o pacto de irmandade em violência. A direção de Kitano privilegia planos médios e edição em plano/contra-plano. Quando Otomo (o próprio Kitano), ex-integrante da Yakuza resolve fazer o trabalho sujo entre as gangues, a história é levada para uma sequência de cerca de quarenta e cinco minutos de assassinatos – que marca a volta de Kitano para o cinema de gênero. Perde o ritmo, porém engloba o lado cômico característico do diretor.


CURLING (Idem,  Canadá, 2010) de  Denis Côté

O esporte que batiza o filme de Denis Côté serve de parâmetro para a análise subjetiva da vitória impressa na vida de Moustache (Emmanuel Blodeau), que cria sua filha em regime fechado e que deixa o medo dominar sua vida. Medo este sem motivo aparente. Com frequentes mudanças de tom – sem perder seu foco de abordar o vazio das vidas de uma região castigada pela neve, no Canadá, a direção de Côté privilegia planos abertos e ação cadenciada, cautelosa. No lugar que nuances tomam proporções gigantescas, Curling consegue ser direto neste sentimento sem precisar de macetes narrativos.


KING OF THE DEVIL’S ISLAND (Kongen Av Bastoy, Noruega, 2010) de Marius Holst

Morno em todas suas tentativas – a reconstituição do momento mais dramático da história da Noruega que une alegorias políticas e a dicotômica lealdade de jovens encarcerados pelo julgamento direitista cristão e a transformação romanceada do gênero em explosivos conflitos moldurados pela neve – King of the Devil’s Island abafa qualquer hipótese de análise aprofundada com aspectos melodramáticos, aproximando muito aos filmes americanos que angariam público e cifras pela “beleza” da persistência, explicitada na primeira sequência do filme – o único motivo plausível para este filme levar o grande prêmio do 4+1. A direção de Marius Holst é contida, concentrada no ideal citado acima.


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