Crítica: A Pele que Habito

01 de novembro por Pedro Tavares | 13 comentários

FESTIVAL DO RIO 2011

Por Leonardo Freitas

Esperar um novo longa do diretor espanhol Pedro Almodóvar é sempre uma experiência curiosa. Nunca sabemos, de fato, o que esperar. Para quem conhece a trajetória de sua filmografia, observamos como o passar dos anos amadureceu o cineasta.

Do debute em curtas nos anos 70, Almodóvar abraçou o escracho kitsch e transgressor de suas películas dos anos 80 como Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, Maus Hábitos e Labirinto de Paixões, levou-se nas comédias dramáticas em meados dos anos 90 com Ata-me e Kika e, em 1995, vimos uma grande mudança em sua filmografia, com o sensível A Flor do Meu Segredo que, a meu ver, é o grande divisor de águas de seu estilo.

No final-começo do milênio, Almodóvar nos deu alguns de seus filmes mais bem acabados, tanto em questão de roteiro, direção, fotografia e atuações. A trinca de ouro Fale com Ela, Tudo Sobre Minha Mãe e Carne Trêmula foi, definitivamente, o estopim de sua carreira, trazendo filmes seguintes bons como Má Educação, Volver e Abraços Partidos mas que, ainda assim, não chegaram a ofuscar o brilho de filmes anteriores.

Com A Pele que Habito, seu trabalho mais recente, o diretor traz de volta seu ator fetiche de filmes dos anos 80 e 90, Antonio Banderas, e substitui sua musa Penélope Cruz, de filmes mais recentes, por Elena Anaya, que já havia trabalhado com Almodóvar em Fale com Ela.

Robert Legard (Banderas) é um cirurgião plástico renomado que, após um acidente com a esposa Gal, se embrenha em uma fixação descomunal em criar um tipo de pele humana mais resistente a danos. Mantendo como prisioneira a misteriosa Vera (Anaya), os dois têm uma relação ambígua de desejo, ódio e adoração, que é observada sem bons olhos por Marília (Marisa Paredes), espécie de governanta de Robert, que vê em Vera um retrato fiel da esposa morta.

Com um prólogo instigante e recheado de mistérios, Almodóvar vai revelando em conta-gotas os segredos que permeiam Robert e Vera, criador e criatura, em uma espécie de doutor Frankenstein moderno. Tudo passa a fazer sentido quando, em formato de flashback, acompanhamos os acontecimentos de seis anos antes, quando a filha do médico, Norma (Blanca Suárez), sofre uma traumática experiência envolvendo o jovem Vicente (Jan Cornet). Pronto, qualquer dado a mais fornecido pode estragar a surpresa de quem assiste A Pele que Habito.

Muitos dos elementos almodovarianos estão ali: as cores vivas na fotografia, a trilha intimista, os planos de câmera inteligentes e inconfundíveis, o humor negro (que, neste caso, está mais discreto), a ironia dos diálogos e, principalmente, a trama cheia de reviravoltas e segredos escondidos pelo tempo que vêm à tona. Porém, nestas teias que Almodóvar ama criar – e, magicamente, nos fez acreditar em alguns de seus filmes anteriores, por mais absurdas que possam parecer – A Pele que Habito deixa a desejar.

Com um humor que não engata (sempre prezei Almodóvar por ir do drama o humor em segundos sem ofender o público) e muitas questões abordadas – bioética, psicanálise, desejos reprimidos, traumas – onde nenhuma delas é aprofundada, sentimos que o filme fica à margem de uma história completa. Porém, ainda vale o ingresso. Afinal, como sempre digo: Almodóvar é que nem pizza; mesmo quando é ruim, é bom.


A PELE QUE HABITO (La Piel Que Habito, Espanha, 2011) Direção: Pedro Almodóvar Roteiro: Pedro Almodóvar Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet Duração: 117 min Distribuição: Paris Filmes

LEIA OUTRAS CRÍTICAS DO FESTIVAL DO RIO 2011 AQUI: http://www.cinemaorama.com/tag/festival-do-rio-2011/

Posts relacionados:

Crítica: Bruna Surfistinha
Crítica: Capitães da Areia
Crítica: Rock Brasília - Era de Ouro

Tags: , , ,

13 comments

  1. Parece que Almodóvar mantém o clima que o caracterizou neste filme, ao mesmo tempo que aparenta ser uma trama diferente do que ele já contou, acho. Quero muito ver. ;)

    • bedcompany

      As tramas do Almodóvar sempre me impressionam. Ele faz com que acreditemos em qualquer universo que ele crie, por mais absurdo que possam parecer. Espero que goste! E obrigado pela visita :)

  2. Estou LOUCA para assistir o novo filme do Almodóvar, apesar de preferir os filmes mais antigos dele, não gostei muito de Abraços partidos, esperava mais daquele filme.
    Espero que A pele que habito seja bem diferente de Abraços partidos, e pela sua resenha, deve ser, pois você disse que; "diretor traz de volta seu ator fetiche de filmes dos anos 80 e 90".
    Confesso que estou ansiosa para ver o que Almodóvar aprontou dessa vez :)

  3. Estou LOUCA para assistir o novo filme do Almodóvar, apesar de preferir os filmes mais antigos dele, não gostei muito de Abraços partidos, esperava mais daquele filme.
    Espero que A pele que habito seja bem diferente de Abraços partidos, e pela sua resenha, deve ser, pois você disse que; "diretor traz de volta seu ator fetiche de filmes dos anos 80 e 90".
    Confesso que estou ansiosa para ver o que Almodóvar aprontou dessa vez

    +1

  4. Num 2011 cheio de bons filmes, A Pele Que Habito periga ser o melhor do ano: http://espinafrando.com/2011/11/espinafrando-a-es...

  5. Ei, estão plagiando esse texto.
    Vejam o texto assinado por Vanderlei França :
    http://www.naoentendemascomenta.com/2011/11/pele-...

  6. Não é verdade que o texto lá no Não Entende Mas Comenta foi plagiado. Confiram. Os textos são diferentes. Claro que a opinião sobr eo filme é igual, mas até aí…

    Infelizmente uma acusação desta é publicada sem qualquer filtro.

  7. Não é verdade que seja plágio. Eu li o texto lá e achei diferente. Uma visão semelhante, mas até aí…

  8. Queridos, era plágio sim! Trocar intrigante por instigante e outras trocas por sinonimo nao descaracteriza plágio. Comparem o quinto parágrafo deste original, com o sétimo e oitavo do outro. Se não mudaram, tá ali a confirmação.
    Parabéns para vocês que estão servindo de inspiração.

  9. Hahaha esse Marcos deve ser alter-ego desse danilo. A mensagem deles é muito parecida, "mas até aí…"

  10. Na minha opiniao eh o melhor dele! Imperdivel! Perturbador!

  11. Camila Galetti

    Enfim, entrou em cartaz na minha cidade, pude assistí-lo e particularmente achei surpreendente.
    Quando você acha que Almodóvar já tinha rompido todos os limites, ele demonstra que tem muito mais a fazer e que a criatividade continua.
    O que achei mais interessante é a forma com que Almodóvar aborda temas considerados tão pesados e consegue transformar isso em algo leve.
    Sou fã dos filmes deles, mas esse último surpreendeu totalmente. Bandeiras foi ótimo na atuação, e Elena Anaya foi boa também, apesar que toda vez que ela aparecia me lembrava da Penelope Cruz, a semelhança das duas é grande, não como atoras, e sim fisicamente falando.
    Enfim, acho que está explícito que adorei esse filme, apesar de ser um pouco pertubador, achei fantástico.

Leave a comment


Copyright © 2011 Cinema O Rama

Tema desenvolvido por João Ximenes - Powered by Wordpress

Assine o RSS