Crítica: Copacabana
Texto por Leonardo Freitas
Cinema francês com gostinho brasileiro
Queria pedir permissão ao leitor para começar esta crítica com uma história pessoal. Trata-se de uma grande amiga que, tempos atrás, vivendo às turras com a mãe, comemorou quando tiveram de se separar (a mãe ia para o Rio de Janeiro e ela permaneceria em São Paulo). A distância, acreditavam as duas, faria bem para a relação, que já estava desgastada pela convivência diária. Porém, logo começaram a sentir uma saudade descomunal uma da outra e, quando voltaram a morar juntas (a minha amiga também se mudou para o Rio posteriormente), as brigas voltaram a acontecer.
Já li uma vez que o ser humano é como um porco-espinho: quando vivem muito próximos, se machucam e, quando se separam, morrem de frio. E é esse o ponto de partida de Copacabana, comédia do diretor e roteirista Marc Fitoussi, que entra na programação oficial do Festival Varilux, que teve início no dia 8 e está espalhado pelo Brasil em 22 cidades.
Babou (Isabelle Huppert) é o tipo de mulher de meia idade que não se preocupa com os convencionalismos: se veste de modo espalhafatoso, diz o que quer, aproveita-se das oportunidades para se dar bem e não se preocupa com carreira ou com o que vão pensar sobre ela. Para alguns, seria uma ótima amiga e uma mulher de espírito livre. Porém, quando se trata de sua filha Esméralda (Lolita Chammah), é julgada como uma inconsequente, gerando uma relação complicada e praticamente insustentável.
Porém, quando Esmé diz que vai se casar e assume, com todas as letras, que não quer a presença de Babou na cerimônia, ela decide dar um novo rumo à sua vida, mudando-se para uma monótona cidade na Bélgica, onde arruma um emprego em uma imobiliária. Disposta a provar que pode ser uma pessoa “de respeito” para a filha, ela vai descobrir – e se descobrir – capaz de mudar não somente para agradar Esmé, mas também para si mesma.
O título do filme, que remete ao amor que Babou sente pelo Rio de Janeiro, é uma grande homenagem do cinema francês ao Brasil, com uma trilha repleta de canções tupiniquins e uma personagem de espírito livre, capaz de encantar e fazer rir boa parte do público na sala de cinema. Isso deve-se, principalmente, a Isabelle Huppert. Vencedora de dois prêmios em Cannes (Violette Nozière e Professora de Piano), é uma das grandes divas do cinema francês contemporâneo que, mais do que interpretar, dá vida a Babou com classe e competência intocáveis.
Com um roteiro bem escrito e leve – apesar de tocar na ferida da relação mãe em filha quando necessário – acompanhamos a rotina de Babou na tediosa cidade belga e sua relação com os outros funcionários, desde a hostil e invejosa Irene (Chantal Banlier) até a exigente chefe Lydie (Aure Atika), além do compreensivo Bart (Jurgen Delnaet), que surge como um caso amoroso e do casal sem-teto Sophie (Magali Woch) e Kurt (Guillaume Gouix), peças-chave para que Babou (re)descubra sua natureza caridosa.
Tratando com delicadeza do tema, sem tomar lados, Copacabana foca nesse acerto de contas entre mãe e filha, sempre atual, com delicadeza e sinceridade, mas sem perder o foco na comédia. E faz isso com gostinho brasileiro, com Huppert em uma cena no páreo de se tornar antológica em que, no epílogo, ela se esforça em passos de samba e até arrisca uma frase em português, deixando os fãs da atriz com um sorriso largo no rosto. Merece ser conferido.
COPACABANA (Idem, França/Bélgica, 2010) Direção: Marc Fitoussi Roteiro: Marc Fitoussi Elenco: Isabelle Huppert, Chantal Banlier, Magali Woch, Lolita Chammah Duração: 105 min
Posts relacionados:
Tags: Crítica





O filme é tudo isso e muito mais!
O considero como um bonito retrato aos moldes simples das relações humanas (obviamente), representando o belo da conquista, da mudança e principalmente do recomeço. Dentre os filmes presentes no "festival" foi que mais me deixou encantada!
Parabéns pela crítica!
Concordo contigo, Márcia. Ele trata de tudo isso que você mencionou, dosando humor e drama na medida certa. E a presença iluminada de Isabelle Huppert é sempre um ótimo adendo, né? Obrigado pela visita e volte sempre