Crítica: A Criança da Meia-Noite
Solidão e busca pelo intangível. É esse o prenúncio da abertura de A Criança da Meia-Noite, quando usa como canção incidental o mesmo tema do clássico de 1954, Rastros de Ódio. Uma canção típica sulista norte-americana como The Searchers , de Stan Jones, em um filme contemporâneo francês pode soar deslocada inicialmente. Mas depois que conhecemos a fundo o personagem David (Vincent Lindon), tudo faz sentido.
David é um médico especializado em tratar uma rara e incurável doença chamada xeroderma pigmentoso, ou apenas XP. Os portadores desse mal são sensíveis à luz ultravioleta e não costumam viver mais que 20 anos. O filme mostra a relação entre David e o jovem Romain (Quentin Challal), um garoto de 12 anos que faz parte do grupo tratado pelo médico. Entre eles há uma relação de confiança, proximidade e cumplicidade de quase dez anos. Por isso, David não sabe como contar a Romain que em breve não será mais seu médico. Ele assumirá um importante cargo na Organização Mundial da Saúde, em outro país, e passará seus pacientes a um outro especialista.
Romain encara a certeza de que morrerá jovem. Tem preocupações como nunca beijar ou fazer amor. Como seu pai abandonou sua mãe quando soube de sua doença, a única figura paterna em sua vida é David. É com ele que divide suas aflições. O médico sabe da importância de sua presença na vida de Romain e tem pelo garoto um afeto imenso.
David convive com sua determinação e com a consciência de que seu destino é lutar contra um mal que não pode vencer. Sua solidão nessa demanda remete ao solitário Ethan Edwards, vivido por John Wayne em Rastros de Ódio. Daí a canção que abre o filme fazer sentido. Ele sabe que não encontrará satisfação ou realização em sua vida, apega-se a um jovem que se rebela contra sua partida e hesita em passar seus pacientes à médica que o substituirá. Como um herói mortificado pela impotência diante do mal, vive a angústia, a despedida e a incerteza. Mas também como o herói, segue adiante, só, em busca de algo que nunca alcançará.
A CRIANÇA DA MEIA-NOITE (La Permission de Minuit, França, 2011). Direção: Delphine Gleize. Elenco: Vincent Lindon, Quentin Challal, Emmanuelle Devos e Caroline Proust. Duração: 110 min. Distribuição: Imovision
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