Crítica: Família Vende Tudo

27 de setembro por Pedro Tavares | 1 comentário

Por Rogério de Moraes

O que há de melhor em “Família Vende Tudo” é a impecável caracterização dos personagens. Só quem nasceu e cresceu na periferia de São Paulo pode atestar o acerto com que o filme representa esse universo. O modo de falar e de vestir; as casas, as ruas, os vizinhos, as relações familiares. Em nada disso há o “ruído” do artificial, que muitas vezes marca produções que se arriscam a reproduzir a atmosfera da periferia.

Uma família que vive de bicos e venda de produtos falsificados vindos do Paraguai perde toda mercadoria em ações da polícia. Para pagar a dívida com o agiota do bairro, decidem tentar aplicar o golpe da barriga em um cantor de música brega. Para isso, utilizam a filha Lindinha (Marisol Ribeiro), fã do cantor e a única que, em raros momentos, parece sentir alguma culpa pelo que está fazendo.

É pelo campo da amoralidade que o diretor e roteirista Alain Fresnot faz transitar seu filme. Sem qualquer hesitação, todos se empenham em fazer lindinha engravidar do cantor e em extorquir dele algum dinheiro. Não há culpas e questionamentos, exceto para Lindinha. A participação ativa do filho mais velho, evangélico praticante, funciona como ironia e provocação. Nesse terreno da amoralidade, o filme faz algumas piadas divertidas, brincando catarticamente com questões como a pirataria no cinema nacional e a invasão evangélica na televisão.

No entanto, o filme se perde a partir do meio da história. Envereda por um registro destoante, oscilando entre um romantismo de almanaque e tons de realismo fantástico. Perde com isso a coerência da narrativa e joga os personagens em situações nada convincentes. Há nessa mudança uma clara busca pelo esquemático roteiro das comédias românticas americanas. Se com isso quis alcançar uma ironia também catártica, errou na dose. Nessa derrapada, salva o filme seu mérito de declaradamente não se levar a sério, o que ajuda a minimizar seus equívocos.


FAMÍLIA VENDE TUDO (Idem, rasil, 2011) Direção: Alain frenot. Elenco: Marisol Ribeiro, Caco Ciocler, Lima Duarte e Vera Holtz. Duração: 90 min. Distribuição: Playarte

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