Cinéphilie: Minha Terra, África
Por Leonardo Freitas
Nascida em Paris, a diretora, roteirista e atriz Claire Denis passou parte de sua infância e adolescência na África. Em seu filme de estreia, Chocolate (1988), ela contou a história de uma jovem que retorna ao continente e retoma suas lembranças e relações diante do racismo. Negando ser autobiográfico em sua primeira empreitada, Denis retorna ao tema para contar uma história ainda mais densa e atual: os conflitos étnicos.
Minha Terra, África (White Material, França/Camarões, 2009), de volta aos cinemas no Indie Festival, que passou por Belo Horizonte e chegou a São Paulo na sexta-feira (16), trata justamente dos resultados desta(s) guerra(s) onde não há mocinhos nem bandidos, em uma terra sem lei, onde as regras são, justamente, fugir delas.
Protagonizado pela impecável Isabelle Huppert (Minha Mãe, A Professora de Piano, Copacabana, 8 Mulheres), o filme mostra a vida de uma personagem branca em meio a este conflito que, dona de uma plantação de café, se recusa firmemente a fugir. Além de ser o “white material” do título, ela passa pelas maiores provas de não abandonar suas esperanças de sobrevivência.
Quando todos os seus empregados a abandonam, Maria Vial tem de enfrentar a insistência do ex-marido Andre (Christopher Lambert) de que deve abandonar o continente. Disposta a lutar, ela ainda tem de lidar com o isolamento do filho, o jovem Manuel (Nicolas Duvauchelle), que se sente constantemente ameaçado e, ao mesmo tempo, curioso com aquele universo tão misterioso e perigoso.
Com uma relação ora distante ora próxima com Boxeador (Isaach De Bankolé), um fugitivo ferido e, sustentando o fardo de ser a única mulher branca em um ambiente repleto de negros, Maria terá de unir o que lhe resta de forças para tentar concretizar seus objetivos. Porém, mesmo nesta África árida, onde a terra, o calor e a violência se sobressaem, a diretora Denis consegue extrair beleza e poesia de um lugar que não sabe o que é a palavra “esperança” há um bom tempo.
Em planos abertos de câmera, que dão um panorama de uma calmaria surda e falsa, Minha Terra, África incomoda pela tensão constante e violência, capazes de deixar o público em alerta de que qualquer tragédia está em iminência, onde até mesmo mulheres e crianças portam armas e fazem da violência sua filosofia de vida de um país “justo”.
Com câmera na mão que se torna, algumas vezes, o olhar do próprio personagem, temos maior proximidade com o trio central formado por aquela família. Maria, o ex-marido Andre e o filho Manuel se dividem em três lados de sentir e agir diante daquela realidade, capazes de alternar entre si os sentimentos, sejam eles raiva, esperança e/ou ódio.
Outro ponto interessante, abordado quase à exaustão em Minha Terra, África, é o rádio como meio de comunicação e, prioritariamente, máquina eficaz de incitação dos conflitos, em um filme que nunca menciona o país em que acontece – clara alusão à situação do continente, ou seja, “poderia ser em qualquer nação africana”.
Com um prólogo intrigante, temos uma direção competente e Huppert dizendo, mais uma vez, a que veio, com uma interpretação competente em um longa que, como haveria de ser, oferece um epílogo que só reafirma a tensão criada durante sua uma hora e quarenta minutos. Interessante, bem feito e que merece ser conferido.
MINHA TERRA, ÁFRICA (White Material, França, 2009) Direção: Claire Denis Roteiro: Claire Denis e Marie N’Diaye Elenco: Isabelle Huppert, Christophe Lambert, Nicolas Duvauchelle, William Dadylam Duração: 100 min Distribuição: Imovision





Isabelle é tudo, gente. Que mulher, que atriz! Sem falar uma palavra ela diz tudo.
E eu tive a HONRA de vê-la no teatro aqui em SP, quando ela veio com "Quartett" *____*
Para mim hoje o simples, a sutileza é tudo. Valorizo filmes que retratam concepções humanas de forma bastante objetiva. A história não precisa ter um certo aprofundamento, ao contrário de seus personagens.
Me impressionei com Minha Terra (…) simplesmente por conta das ações. Ou seja, não precisa dizer em palavras o que está acontecendo, os gestos falam por si só. Em determinados momentos você "esquecia" – pelo menos foi o que aconteceu comigo – do embasamento de fundo porque os personagens 'dominavam" a cena.
Não é fragmentado como O Intruso (2004) que este por sinal também me marcou, mas tem uma essência única. Talvez inovadora que querendo ou não ressalva uma importante característica de Denis; a sua vivência.
Parabéns pela crítica!!