Subtende-se Algo?: Béla Bálaz: O processo fílmico e psicológico no cinema

07 de julho por Pedro Tavares | 2 comentários

Por Márcia Freddy

A FAMOSA IDENTIFICAÇÃO

Dentre as inúmeras teorias cinematográficas existentes, há uma em especial, que me suscita diversos pensamentos e sensações, quando reflito sobre a verdadeira proposta do cinema.

Vocês, assim como eu, já deve ter sentido aquela “famosa” sensação de identificação, perante a uma determinada história. Cada concepção artística utiliza seus meios para que esse abstrato se torne real, e se perdure por um determinado tempo. Nesse “sentido”, esses meios estão ligados não somente a construção narrativa mais também aos aparatos técnicos.

Béla Bálaz, importante teórico húngaro, ressalva que o cinema, mais precisamente, é movido através da aproximação, onde as emoções dos personagens são transmitidas com tamanha clareza. Ou seja, como se eles (personagens) estivessem se dirigindo a nós (espectadores).

“No cinema a câmera carrega o espectador para dentro do filme. Vemos tudo como se fosse do interior, e estamos rodeados pelos personagens. Estes não precisam contar o que sentem uma vez que nós vemos o que eles vêem e da forma em que vêem.” – (Bela Bálazs, teórico húngaro).


Nesta citação, especificamente, Bálaz aponta as novidades do cinema em relação ao teatro dos quais o filme rompe o olhar imposto ao espectador dentro da narrativa, com as rígidas separações entre tela/platéia, a variação dos ângulos e das distâncias entre a câmera, forçando o olhar do público a coincidir com o olhar do personagem, permitindo também que ocorra a substituição da visão objetiva pela subjetiva. Ou seja, essa “identificação” que nós, assim como Bálaz chamamos “carinhosamente”, é um processo psicológico pelo qual o público, através dos diferentes enquadramentos da câmera, observa o que os personagens vêem e da forma com que vêem no cinema – conforme citado, pois estamos dentro do filme, já que não há mais a distância entre a obra e o espectador, como nas artes precedentes:

“Nosso olho, e com ele nossa consciência, identifica-se com os personagens no filme; olhamos para o mundo com os olhos deles e, por isso, não temos nenhum ângulo de visão próprio. Andamos pelo meio de multidões, galopamos, voamos ou caímos com o herói, se um personagem olha o outro nos olhos, ele olha da tela para nós. Nossos olhos estão na câmera e tornam-se idênticos aos olhares dos personagens. Os personagens vêem com os nossos olhos. É neste fato que consiste o ato psicológico de “identificação”. Nada comparável a este efeito de “identificação” já ocorreu em qualquer outra forma de arte e é aqui que o cinema manifesta sua absoluta novidade artística”. (BALÁZS In: XAVIER (org.), p. 85)


Além da identificação, a fisionomia – aspecto bastante comentado por Bálaz em seus textos – está relacionada à aproximação do objeto, onde os detalhes são revelados através de ângulos, enquadramentos e distâncias até então inimagináveis (Dentre essas representações, cabe o próprio cineasta escolher as que melhor expressam os sentimentos dos personagens, permitindo assim, que ocorra a já – mencionada – identificação dos espectadores):

“Toda arte lida com seres humanos, é uma manifestação humana e apresenta seres humanos. Parafraseando Marx: ‘a raiz de toda arte é o homem’. Quando o close-up retira o véu de nossa imperceptibilidade e insensibilidade com relação às pequenas coisas escondidas e nos exibe a face dos objetos, ele, ainda assim, nos mostra o homem, pois o que torna os objetos expressivos são as expressões humanas projetadas nesses objetos. Os objetos são apenas reflexos de nós mesmos, e é esta característica que distingue a arte do conhecimento científico (embora este seja, em grande parte, determinado subjetivamente). Quando vemos a face das coisas, fazemos o que os antigos fizeram quando criaram deuses a partir da imagem do homem e neles imprimiram uma alma humana. Os close-ups do cinema são instrumentos criativos deste poderoso antropormofismo visual”. (BALÁZS In: XAVIER (org.), p. 92)


Para Béla Bálaz, no entanto, são os closes-up do rosto humano que constituem dimensão em si mesma, espiritual – a dimensão da alma -, pois revelam sentimentos, pensamentos, emoções que existem apenas fora do tempo e do espaço:

“A expressão facial no rosto é completa e compreensível em si mesma e, portanto, não há necessidade de pensarmos nela como existindo no espaço e no tempo. mesmo que tivéssemos acabado de ver o mesmo rosto no meio de uma multidão e o close-up apenas o separasse dos outros, ainda assim sentiríamos que de repente estávamos a sós com este rosto, excluindo o resto do mundo. mesmo que acabássemos de ver o dono do rosto num plano geral, quando olhamos para os olhos, num close-up, já não pensamos mais naquele espaço amplo, porque a expressão e a significação do rosto não possui nenhuma relação nem ligação com o espaço. ao encarar um rosto isolado, nos desligamos do espaço, nossa consciência do espaço é cortada e nos encontramos numa outra dimensão: aquela da fisionomia. o fato de que os traços do rosto podem ser vistos lado a lado, i.e., no espaço – que os olhos estão em cima, os ouvidos nos lados e a boca mais baixo – apaga toda referência ao espaço quando vemos, não uma figura de carne e osso, mas sim uma expressão ou, em outras palavras, emoções, estados de espírito, intenções e pensamentos, ou seja, coisas que, embora nossos olhos possam ver, não estão no espaço, pois sentimentos, emoções, estados de espírito, intenções, pensamentos, não são, em si mesmos, pertinentes ao espaço, mesmo que sejam visualizados através de meios que os sejam”. (BALÁZS In: XAVIER (org.), p. 93-94)


Essas concepções abordadas pelo teórico podem parecer confusas, mas fazem todo o sentido se no processo de retratação histórica, a concepção humana estiver em primeiro lugar.

Bibliografia:
EISENSTEIN, Serguei. A Forma do Filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
XAVIER, Ismail (org.). A Experiência do Cinema. Rio de Janeiro: Graal, 2003.

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2 comments

  1. Márcia,

    Parabéns pelo texto e pelas observações. O cinema vai muito além de simples imagens. Existe uma infinidade de simbologias e interpretações, assim como em todos os outros tipos de arte.

  2. Estragou a matéria citando Marx.

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