Filmografia: Christophe Honoré

05 de julho por Pedro Tavares | 3 comentários

Christophe Honoré e o Cinema Francês contemporâneo

Por Leonardo Freitas


Christophe Honoré, de 41 anos, se tornou um dos nomes mais representativos da filmografia francesa da atualidade. Com uma carreira diversa, tratou de temas polêmicos com personagens reais, palpáveis e empáticos, que fizeram com que conquistasse um público fiel e que não vê a hora de ir aos cinemas apreciar mais um de seus filmes.

Cinema de autor? Definitivamente, embora Honoré circule pelos mais diversos caminhos nas suas obras, sejam elas como diretor (de cinema e teatro), roteirista, produtor e, até mesmo, escritor de romances (já são mais de dez e apenas um transposto para as telas) e livros infantis. É muita coisa a dizer para pouco espaço, convenhamos.

Escritor de artigos para a renomada revista francesa Les Cahiers Du Cinéma, Honoré dirigiu seu primeiro longa, 17 Fois Cécile Cassard, em 2002, após estrear na direção um ano antes com o curta Nous Deux. De forma original, Honoré escreve e dirige a imersão, em 17 momentos, no universo de uma jovem que perdeu seu grande amor e se muda da provinciana cidade onde vive.

Após dirigir Todos Contra Léo (2002), única adaptação de um romance de sua autoria, o filme para a TV que tratava de um jovem que revela à simplória família rural que é portador do vírus HIV, expunha uma das maiores características dos filmes de Honoré: as complicadas relações, principalmente as familiares.

Ainda desconhecido internacionalmente, o diretor tinha escondido na manga um roteiro extremamente polêmico para sua próxima obra: uma adaptação homônima de Minha Mãe (Ma Mère, 2004), romance do escritor francês Georges Bataille. A história revela, de forma perturbadora e claustrofóbica, a relação incestuosa do jovem Pierre e sua mãe Hélène. Para isso, ele trouxe ao elenco Louis Garrel (que havia acabado de terminar Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, que o catapultou à carreira internacional) e a grande musa Isabelle Huppert, como a inconsequente mãe que envolve o filho em um caldeirão emoções como  sexo, desejos reprimidos, solidão e voyeurismo.

Porém, Honoré passou a ganhar os holofotes, de fato, com a estreia de Em Paris (Dans Paris, 2006), que firmaria uma extensa e duradoura parceria com o astro Garrel. Na história, ele é Jonathan, um jovem estudante que, ainda perturbado pela morte da irmã Claire, tem de dividir o teto com o pai (Guy Marchand) e o irmão Paul (Romain Duris, que já havia trabalhado com o diretor em 17 Fois Cécile Cassard), um homem depressivo após ser abandonado pela namorada Anna. A afinidade do trio central esmiúça uma família perturbada, com uma mãe ausente e relações com as mulheres que vão da profundidade esmagadora à superficialidade dilacerante. Mais um roteiro escrito por Honoré, que cria personagens perdidos em si mesmos e nas relações que os envolvem.

Em Paris levou os críticos a franceses a caracterizar Honoré como “o herdeiro da Nouvelle Vague”, grande movimento artístico do cinema daquele país nos anos 60, da qual fez parte a nata de diretores como Jean-Luc Godard, François Truffaut e Alain Resnais. Exagero ou não, a questão é que o existencialismo de Honoré de personagens que se descobrem – e descobrem o outro – diante de atitudes cotidianas, planos de câmera originais e diálogos fortes colocou, definitivamente, Honoré no hall de cineasta de sucesso de crítica e público.

Chega o ano de 2007 e Canções de Amor bebe da fonte de Oito Mulheres, sucesso de François Ozon, para contar uma história por meio de um musical. O filme, que entrou oficialmente na competição da Seleção Oficial do Festival de Cannes 2007, perdeu a Palma de Ouro para o insosso 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu, mas agradou ao público, especialmente pelo belo e carismático quarteto de atores: Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme e Grégoire Leprince-Ringuet. A trama retrata a liberdade sexual de um grupo de jovens que se relacionam, entregam-se aos seus desejos, independente de orientação sexual. O sexo, inclusive, é um ponto frequentemente lembrado nos longas de Honoré. Sem pudores, o diretor trata da homossexualidade e dos desejos reprimidos – ou não – em suas películas. Seja em 17 Fois Cécile Cassard, Minha Mãe ou Canções de Amor, a temática homossexual se faz presente em boa parte de suas obras.

No ano seguinte, estreia A Bela Junie, onde Honoré se inspira em Princesa de Cleves, de Madame de Lafayette, escrito no século 17 e um dos primeiros romances psicológicos da literatura francesa, para contar a história de Junie (Léa Seydoux) uma bela e introspectiva garota de 16 anos que se muda para uma escola após a morte da mãe. Lá, ela atrai a atenção de Otto (Grégoire Leprince-Ringuet), porém ela se descobre apaixonada pelo professor de italiano Nemours (Louis Garrel). A câmera, apenas observadora, passeia pelos conflitos que se desenrolam ao redor de Junie, uma moça complexa e dividida entre os amores, em uma mostra sincera das dúvidas e dualidades que envolvem a paixão na adolescência. Curioso ver Garrel e Leprince-Ringuet, amantes no antecessor Canções de Amor, disputando o coração da moça-título.

Sempre colocando seus personagens em ambientes profundamente urbanos, mostrando o lado belo e sujo da França, Honoré transporta a personagem de seu próximo filme para o campo. Léna, de Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar (Non Ma Fille, Tu N’iras Pas Danser), de 2009, traz Chiara Mastroianni, filha dos míticos Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve, que já havia trabalhado com o diretor em participações menores nos antecessores Canções de Amor e A Bela Junie. Aqui, ela se muda com os filhos para a casa dos pais no interior após se separar do marido. Não demora muito para que os conflitos ocorram, como um romance mal resolvido com Simon (Garrel, novamente ele) e a relação conflituosa com a irmã grávida (Marina Foïs) e o inconveniente irmão caçula (Julien Honoré, irmão do diretor).

Aqui Honoré se aproxima da temática infantil de seus livros e traz nos dois filhos pequenos de Léna a chance de enxergar o mundo dos adultos através do olhar das crianças. Exorcizando os fantasmas do passado, Chiara cria uma Léna complexa, incapaz de lidar consigo mesma e com outros, apoiada pela direção segura e de forte carga dramática de Honoré.

Já em Homme Au Bain, último filme de Honoré a estrear em terras brasileiras (esteve na programação do festival Mix Brasil da Diversidade Sexual 2010), ele foge da pureza e escancara ao tratar da homossexualidade. Com roteiro de sua autoria, ele conta – em apenas 72 minutos – a história de separação do casal Omar (Omar Ben Sellem) e Emmanuel (o astro do pornô gay François Sagat). Quando Omar decide viajar para os EUA, Emmanuel se embrenha em um universo de sexo e, ao mesmo tempo, solidão, que permeia todo o filme.

Em um filme cuja palavra chave poderia ser resumida em “desejo”, Homme Au Bain exterioriza as divagações que vão tomando forma nos personagens, onde sexo anda lado a lado de questões como solidão, amor, ódio e lembrança. E esse mesmo sexo é capaz de preencher o vazio em todas essas mesmas questões. Feito com câmera na mão, sem se preocupar necessariamente com a técnica, Honoré coloca na prática um filme sobre o dilema de nos sentirmos – ou não – desejados, seja essa dúvida diante do sexo ou do amor.

Com estreia prevista para agosto deste ano na França, o mais novo filme de Honoré, Les Bien-aimés, revisita os musicais e traz o costumeiro Louis Garrel e as belas Chiara Mastroianni e Ludivine Sagnier, trio que já havia trabalhado no musical anterior, Canções de Amor. É a primeira vez que Chiara terá a chance de atuar frente a frente com a mãe, o grande ícone do cinema francês, Catherine Deneuve. Interpretando mãe e filha, o filme acompanha a relação das duas dos anos 60 até 2008 por meio dos relacionamentos amorosos de que as permeia. Pelo trailer, já disponível na internet, podemos constatar que humor, drama e visual kitsch é o mínimo que se pode esperar deste novo filme de Honoré. E vindo de Honoré, podemos esperar muito mais. Só nos resta aguardar.

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3 comments

  1. Tem alguns filmes que gosto, apenas, são mais toleráveis, mas definitivamente o cinema de Honoré não é o tipo que eu aprecio. Vejo muita pretensão em suas fitas, enfim.

    • bedcompany

      Entendo seu ponto de vista, Elton. E cheguei a ver tais características em certos diretores que, assim como acompanhei com Honoré, chegaram a amadurecer com o tempo.

      Entendo seu ponto de vista. E cheguei a ver tais características em certos diretores que, assim como vejo com Honoré, chegaram a amadurecer com o tempo.

      Porém, ainda o considero um nome em ascensão no Cinema Francês. É esperar pelo amadurecimento ou queda.

      Abraço e obrigado pela visita
      :)

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