Crítica: Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres
Por Leonardo Freitas
Cinebiografia retrata o músico Serge Gainsbourg e sua vida regada pela bebida, pelo cigarro e, principalmente, por belas mulheres
Não poderia haver título mais propício para a cinebiografia do músico, cantor e compositor francês Serge Gainsbourg. Símbolo de charme, boemia, talento e virilidade, ele nasceu Lucien Ginzburg em 1928, dentro de uma família russa fugida da Revolução de 1917. Judeu e criando seu próprio universo infantil, relutou em aprender piano, grande sonho do pai, Joseph (Razvan Vasilescu). Protegido pela doce, porém rígida, mãe Olga (Dinara Drukarova), o jovem Lucien tem sua intensa vida retratada em Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres.
Dirigido, escrito e produzido por Joann Sfar, o filme conta desde a tenra idade de Lucien e seu amor incondicional e eterno às mulheres e à boemia, passando pela personalidade forte que misturava pureza e maturidade em um universo peculiar e onírico, onde o limite do mundo real e os simbolismos do irreal se quebra. Isso se deve, especialmente, à veia de Gainsbourg, um homem entregue aos prazeres da arte e da carne, como o sexo, a música, a bebida e o cigarro.
Em seu universo de pintura e contador de histórias, Lucien (o simpático Kacey Mottet Klein) descobre as delícias do mundo adulto ainda criança, desde o desejo sexual até o preconceito, onde seu lado politicamente incorreto surge na forma de um ser mitológico, uma espécie de alter-ego caricatural que o persegue por toda a vida, interagindo com sua realidade, sendo sua voz ao pé do ouvido. Do lirismo bem medido ao seu charme impecável, Lucien se torna Serge (Eric Elmosnino), um homem desprovido da beleza estética (possuía um nariz grande, orelhas de abano e olhos esbugalhados), mas que compensava no charme com seu poder inigualável de sedução.
Envolve-se com a cantora e atriz Juliette Gréco (Anna Mouglalis) e com o ícone da sensualidade do cinema francês Brigitte Bardot (a modelo e atriz Laetitia Casta), porém, Gainsbourg encontra a mulher que lhe faz rir: a atriz e cantora Jane Birkin (Lucy Gordon), quase 20 anos mais nova e que se torna a sua companheira mais duradoura e conhecida. Juntos por 12 anos, da conturbada e intensa relação nasce a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg e a música que elevou a níveis estratosféricos a taxa de natalidade no mundo: o hino sexual Je T’aime Moi Non Plus, que chocou a sociedade da época por insinuar que tinha sido gravada enquanto os dois faziam sexo. Birkin disse à época que, se fosse, teriam gravado um disco inteiro. O mistério permaneceu e a música tornou-se icônica.
Com altos e baixos, Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres tem, em sua boa parte, um clima de extrema sensualidade e beleza, tanto pela fotografia predominantemente iluminada em tons de vermelho e azul como pelas beldades que desfilam pela tela. A cena em que Bardot surge com seus esvoaçantes cabelos loiros, suas longas botas e um cachorro na coleira, já pode ser considerada antológica.
Porém, logo depois da separação dos dois, surge Birkin, uma moça adorável, bela e risonha que, misturando sensualidade e inocência, conquista Gainsbourg. O ícone, sufocado pela própria fama e pelos vícios, vai se deteriorando cada vez mais, encurralado em sua loucura artística, deixando Elmosnino impressionantemente mais parecido com o artista francês (embora a sensualidade de Gainsbourg seja substituída pelo jeito franzino do ator). Inclusive, um dos pontos mais altos do longa é justamente a chocante semelhança de seus intérpretes com relação aos personagens. Além de Elmosnino, Casta e Gordon (Bardot e Birkin, respectivamente) exalam sensualidade e se beneficiam de uma câmera viciada em ambas. A direção irregular de Sfar completa o pacote e prende a atenção do público em grande parte do filme, até resvalar em um epílogo apressado e, de certa forma, tedioso.
Mas, ainda assim, é curioso conhecer mais o homem por trás do artista Gainsbourg, que fez a França parar no dia de sua morte, em 2 de março de 1991 quando deixava, aos 62 anos, uma vida de excessos. Os fãs, em sua homenagem, levaram até sua casa garrafas de Pastis e maços de Gitanes. Ele, com certeza, encheria o copo e acenderia um cigarro atrás do outro para tocar seu piano. Ah, e com uma bela mulher seminua ao seu lado, claro.
GAINSBOURG – O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (Gainsbourg: Vie Heroique, França, 2010) Direção: Joann Sfar Roteiro: Joann Sfar Elenco: Kacey Mottet Klein, Anna Mouglalis, Laetitia Casta, Eric Elmosnino Duração: 130 min Distribuição: Imovision
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