Crítica: Film Socialisme

15 de junho por Pedro Tavares | 2 comentários

Inspirado pela poesia e vídeo-arte, Jean-Luc Godard cria um gigantesco mosaico em Film Socialisme, que subverte a noção de narrativa do cinema. Por mais fragmentada que seja, ela está lá, mesmo que em forma diminuta. Para começar, o filme tem duas versões. Uma com legendas que acompanham os diálogos. A segunda, batizada de “versão Godard”, capta apenas o que o diretor considera importante para construir seu manifesto, comparando o cérebro humano a um deserto.

Logicamente, essa escolha salienta a opinião sobre a futilidade e o excesso de diálogos em filmes. Mas o cinema não é o único ataque de críticas do diretor. Entre reflexões políticas e religiosas, Godard sugere debates sobre AIDS (e a incrustada visão política sobre o assunto), globalização, a era digital (e todas as leis autorais que a cerca) e claro, a relação socialismo-capitalismo.

No primeiro ato, a análise corre a Europa através de um cruzeiro, onde a pluralidade de idiomas reverbera a intenção do diretor de incentivar a reflexão durante os diálogos soltos, abstratos. No segundo, dois irmãos discutem ideologias de vida entre colagens e devaneios que destroçam o sensacionalismo e a manipulação televisiva e a revolta dos mais puritanos contra o cinema digital. No último, talvez o mais difícil de assimilar – o estudo de mitos da humanidade -, ironicamente Godard entrega como seu filme deve ser desconstruído e o porquê de desenvolver Film Socialisme dessa maneira.

Fora o lado inovador de representar duas formas de arte praticamente marginalizadas dentro de uma narrativa, Godard esmaece diversos assuntos sem que eles pareçam deslocados dentro da proposta quase descompromissada com seu próprio engajamento. Film Socialisme é sim um filme difícil de assimilar e propositadamente feito para ser visto diversas vezes, junto com novas idéias e posturas.



FILM SOCIALISME (Film Socialism, França/Suíca, 2010) Direção: Jean-Luc Godard Roteiro:Elenco: Patti Smith, Élisabeth Vitali, Christian Sinniger, Quentin Grosset Duração: 97 min Distribuição: Imovision

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2 comments

  1. Gustavo H.R

    Esse é o problema. Confesso que tenho receio de boiar vendo esse troço. Mas, por outro lado, obras assim desafiam e duram mais…

    • cinemaorama

      Gustavo, por mais que você possa "boiar" ao ver o filme, creio que fica a motivação para assistir outras vezes. Como Kubrick fez em 2001, sabe?

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