Crítica: Cisne Negro
A intensidade com que Darren Aronofsky rege a transformação do belo em trágico através da literal metamorfose do artista em arte utilizando aspectos distintos e aparentemente sem encaixe coroam o choque em Cisne Negro.
Aronofsky está à procura da representação do abstrato, do caótico, da interminável guerra da autodestrutiva mente de Nina (Natalie Portman), seja nas imagéticas metáforas – onde boa parte delas acopla elementos do suspense e até mesmo do gore – ou na decupagem de seus planos, que praticamente coreografa sequências de câmera na mão e planos mais abertos, como se cada cena guardasse seu momento de bonança e tempestade.
O balé, fonte de inspiração do roteiro originalmente escrito por Andrez Heinz, justifica tamanha distinção de elementos usados pelo diretor. É possível compilar cenas tensas, fortes com a sutileza dos passos de “O Lago dos Cisnes”. O rito de passagem do cisne branco para o cisne negro requer calos, dor, descobertas, decepções e a chance para o recomeço.
Justamente neste ponto que Cisne Negro se transforma em campo de qualquer possibilidade, do belo, do grotesco, de saídas tacanhas ou geniais dependendo de sua interpretação. A graça é essa. Interagir dinamicamente com o improvável.
CISNE NEGRO (Black Swan, EUA, 2010) Direção: Darren Aronofsky Roteiro: Andrez Heinz, Mark Heyman, John McLaughlin Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Winona Ryder Duração: 108 min Distribuição: Fox





Olá,
Este filme é lindo… e gostamos do seu texto também.
Abraços,
Kleber e Jonathan
Obrigado, Kleber e Jonathan! Voltem sempre.
Um filme que, infelizmente, não é o favorito da Academia e provavelmente perderá para o insosso 'A Rede Social' mas que, para mim, é o melhor filme da época. É perturbador, insano, genial… é Aronofsky e sabemos que todo gênio é incompreendido em seu tempo. E sabemos também que nem sempre os filmes premiados pelo Oscar são os mais memoráveis.
É filme de arte, nem todos compreenderão, embora atualmente a moda seja gostar do bizarro e muitos se agarraram ao longa pela protagonista queridinha.
Gostei do adjetivo para "A Rede Social". "Cisne Negro" tem essa dicotomia interessante com a junção da acessibilidade narrativa e das crises-quase-abstratas da protagonista. O que mais instiga no filme é a sua pulgência, na minha humilde opinião.
Pretendo ver o filme antes de falar qualquer coisa. MAS, como realmente não consigo permanecer calada, espero que a atuação da Nat (Natalie Portman para os menos íntimos) me deixa de boca aberta, assim como sua beleza.
Paola, ela é linda mesmo. E sua atuação já a rendeu o Globo de Ouro. O Oscar, pelo visto, é questão de tempo.
Direção e edição à parte, Natalie deu um show de dupla identidade. A fragilidade do cisne branco de Nina quase me fez esquecer todas as personagens fortes e temperamentais que tinha feito anteriormente.
Não dá pra deixar de falar de como usar efeitos de forma inteligente e sem clichês, misturando o drama ao suspense e ao surrealismo.
Adoro ficar confusa e o filme conseguiu fazer isso comigo.
Mas confesso estar bem dividida em meu favoritismo entre "Inverno da Alma" e "Cisne Negro", entre Natalie e a jovem Jennifer… como quase sempre eu durmo frustrada com os resultados do Oscar… rs
Caren, minha escolha é da Jennifer por um só motivo: ela rouba o filme. O personagem dela, apesar de protagonizar a história, poderia ser fragilizado por todas aquelas tragédias, mas a atuação dela é visceral e assustadora. A Natalie tem o filme pra ela. É lógico que tem muitos méritos, mas o resultado do filme não deve interferir na minha escolha hehehe. Enfim, "Cisne Negro" é a dose perfeita de um bom desenvolvimento narrativo e elementos de gêneros distintos. Filmaço.
O culto a forma é presentear alguém com algo roubado do quarto do aniversariante. A vontade de satisfazer é nobre, mas o eterno retorno do agradecimento faz de todos prisioneiros em liberdade condicional do artifício. A chave da sua cadeia é seu inimigo oculto. Um quarto negro que você nunca esteve antes. É escuro, causa esbarrões, que trazem hematomas. Mas você vai sentir o seu corpo doer ao tatear os objetos. É preciso sentir os contornos pra achar algo belo, digno se der entregue ao próximo. E no dia da troca dos presentes, você vai conseguir ver onde estão o hematoma, descobrir que foi causado pela quina de uma mesa, e se surpreender com com a escolha Quem receber vai ficar com ele, não tem loja pra fazer a troca. Cisne Negro mostra que não se conhece a vida olhando pro espelho, tem que tatear a dor no escuro.
Lipe, suas observações são relevantes e imprimem a relação universal (público) com o longa.
Achei impressionante como o Darren fez um filme praticamente preto e branco – como se vê na direção de arte e fotografia e figurino -, predominado por uma oposição dessa cores e da imagem refletida e fragmentada. E isso deixou a experiência muito mais interessante, como uma forma de materializar aquela obsessão da Nina. Adorei o filme, daqueles que a gente fica sem saber o que fazer quando acaba, muito intenso. Quero assistir de novo, uma vez não bastou.
O bom de vir aqui é não me deparar com um texto genérico sobre um filme. Legal, pedro.
[]s!
Jeff, tive a mesma impressão sobre a estética mas escolhi não abordar para não me estender demais. Sobre a crítica, muito obrigado e apareça mais vezes!
O filme é simplesmente maravilhoso!!! Mostra a dualidade existente existente no ser humano entre o bem e o mal, e seu processo subjetivo do sofrimento humano em "guerrear" com seus instistos mais primitivos… Nos mostra também a personalidade dominate e o momento da ruptura com a outra parte…
É um dos melhores filmes que realmente aborda o que é o ser humano…
Concordo, Elzemeire! Volte sempre.