Sessão Naftalina: O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante (Peter Greenway, 1989)
Texto por Natália Alonso
Quem esperava um filme ordinário sobre uma mulher solitária e um marido traído furioso: guarde as expectativas e prepare-se psicologicamente para esta escancarada declaração obsessiva de amor à sétima arte. O diretor Peter Greenaway busca no lado mais obscuro de sua mente, o enredo trágico e doentio desta película.
O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante não possui qualquer roteiro enfeitado com boa fotografia e notável Direção de Arte. Para Greenaway, prevalece a combinação entre o medonho roteiro, as cenas escatológicas e as belas cores. As mudanças de cena são como coreografias, nunca tomadas longas e sem movimento.
Albert Spica (Michael Gambon) é um gângster que janta todas as noites, em companhia de sua gangue e sua esposa Georgina (Helen Mirren), no restaurante Le Hollandais. Georgina, com a ajuda do chefe de cozinha Richard (Richard Bohronger), encontra-se com seu amante, o bibliotecário Michel (Alan Howard). Os dois têm relações na despensa e no banheiro, enquanto Albert janta como um troglodita. Ao descobrir que a esposa tem um amante, Spica se vinga, porém, o que ele não esperava era a sórdida vingança de Georgina.
Cada cenário possui luz e cor diferente, como se cada cor representasse uma cena e o sentimento por trás dela. Como o vermelho do restaurante onde ocorre toda a violência ou o branco do banheiro que representa, para os amantes, o paraíso. Embora não seja o que o longa tem de mais marcante, o enredo que contrasta com a impecável fotografia, é surpreendente e chocante, o que torna a obra ainda mais extraordinária.
A fotografia remete a pinturas feitas a óleo, lembrando o estilo do quadro “Banquete dos Oficiais da Companhia da Guarda de São Jorge“, do pintor naturalista holandês Frans Hals (1580-1666), que claro, propositadamente fica na parede do restaurante. Muitas cores, contrastes de luz e objetos estrategicamente posicionados marcam este pedaço de arte.
Talvez o quadro seja apenas uma das características naturalistas do filme, que mostra o lado instintivo, animal do ser humano. A gula do gângster, a maneira primata de comer traz à tona os sujos sacerdotes dos romances de Eça de Queirós e até os antigos impérios, regados a comida e sexo (ver Calígula – também com Helen Mirren), o instinto que atropela os princípios e os tipos marginalizados são outros pontos que levam ao naturalismo.
Helen Mirren transmite genialidade ao atuar, a expressão triste, dissimulada e o vago olhar de Georgina são alguns dos detalhes embutidos nesta personagem tão bem construída.
O canibalismo, o romance tórrido e o ar de tragédia grega são partes essenciais de um todo, absolutamente insólito, exuberante e extraordinário, que fazem com que a simples história de uma paixão proibida tenha mais cor e sabor, na infinidade que a arte permite.
O COZINHEIRO, O LADRÃO, SUA MULHER E O AMANTE (The Cook the Thief His Wife & Her Lover, Inglaterra/ França, 1989) Direção: Peter Greenaway Roteiro: Peter Greenaway Elenco: Richard Bohringer, Helen Mirren, Michael Gambon, Alan Howard, Tim Roth Duração: 124 min





De Peter Greenway assiste apenas o interessante "Afogando em Números" e tenho curiosidade em conferir este outro trabalho também.
Abraço
Não sei se a Natália gosta, mas eu sugiro o '8½ Mulheres' que é bem legal. Um pouco perturbador, mas enfim…
Acho genial este filme, uma homenagem a arte. Greenaway faz quase uma obra teatral, onde mesmo com um roteiro super simples, cativa do começo ao fim por conta das cores. Cada frame parece uma obra de arte =)
Abs!
É um filmaço. Estou sem tempo para escrever sobre Tarkovsky como me pediram, porque implica em rever 3 horas de Andrei Rublev, mas a próxima resenha é de Buffalo 66. Em breve.