Sessão Naftalina: Buffalo’66 (Vincent Gallo, 1998)

24 de maio por Pedro Tavares | Nenhum comentário

Texto por Natália Alonso

Para Vincent Gallo, escrever um roteiro que, aparentemente, não gerava muitas expectativas, não bastou. O cineasta dirigiu e atuou, construindo um trabalho de mestre. Buffalo ’66, filme pouco conhecido pela maioria e muito apreciado pela minoria que teve a oportunidade de assisti-lo, tem enredo simples e lado artístico marcante.

Billy Brown (Vincent Gallo) sai da prisão com uma incontrolável vontade de fazer xixi. Introvertido e com cara de poucos amigos, não consegue encontrar um lugar razoável. Ao adentrar em uma academia de balé para ir ao banheiro, encontra Layla (Christina Ricci), uma adolescente, dançarina de sapateado. Brown resolve sequestrá-la, com o propósito de apresentá-la aos pais como sua esposa em um jantar, pois descrevera sua vida como bem sucedida e tentaria manter a mentira. Os pais de Billy, Jimmy (Ben Gazzara) e Janet (Anjelica Huston) são um tanto peculiares, torcedores fanáticos da equipe de futebol Buffalo Bills, tornarão o jantar um tanto inconveniente.

Bill é um personagem fechado, não gosta de demonstrar sentimentos e, como toda pessoa tímida que tem vergonha do que sente, veste uma máscara de “durão” e “destemido”. Layla, por outro lado, é romântica, falante, comunicativa, interpretada lindamente por Ricci, no auge de sua beleza adolescente, é sexy e sedutora. É um pleonasmo e um pecado comentar as atuações de Huston e Gazzara, seus personagens caricatos, mas não batidos, foram feitos sob medida.

O longa chama a atenção pelo roteiro sem firulas, preciosismos e discursos filosóficos, uma história simples de pessoas diferentes, que poderiam ser reais, colocada de forma artística. Ao contrário de outras películas no mesmo estilo, esta não tenta passar uma mensagem social, escancarar realidade ou fazer denúncias. É isso e pronto, quase uma Nouvelle Vague em clima underground nos Estados Unidos. Embora singelo, não tem nada de superficial, o sofrimento nos olhos de Billy é visível, a empatia pelo ex-presidiário se torna inevitável.

A fotografia é viva, hora cores quentes, hora cores frias, contrastando com as situações vividas por Brown e Layla, intencional, moderna, instigante, melancólica. É um filme de muitas cenas marcantes, como a que Ricci dança sozinha em frente à pista de boliche. Em alguns momentos, é possível enxergar o lado sensível de Billy, algo espetacular, resultado da performance de Gallo.

Nenhuma obra sobrevive sem clichê, mas Buffalo ’66 é um clichê às avessas, um conjunto de cenas minuciosamente bem feitas e executadas, o tipo de arte que não agrada somente os olhos da crítica insatisfeita e exigente, mas causa a sensação gostosa no estômago tão esperada após 110 preciosos minutos também no espectador. Nem pesado, nem leve: do tamanho certo da sede dos apreciadores da sétima arte.

BUFFALO ‘66 (Buffalo ‘66, USA, 1998) Direção: Vincent Gallo Roteiro: Vincent Gallo Elenco: Vincent Gallo, Christina Ricci, Bem Gazzara, Anjelica Huston Duração: 110 min.

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