Crítica: Amor?
Na sustentação da catarse dos depoimentos que formam o novo longa de João Jardim (Lixo Extraordinário), estão cenas onde os personagens de Amor? criam uma peculiar relação com a água. No banho, na piscina ou no mar. De encontro com a dura realidade – o close nas mãos nos dentes serrados, na escolha de não encarar a câmera. Louvada seja a decupagem – está o momento da fuga, do descarrego, do alívio.
Amor? bebe da fonte do diretor Eduardo Coutinho, que por necessidade de se aproximar física e psicologicamente de seus personagens e tornar a entrevista em conversa – método que anos depois o próprio Coutinho subverteu ao escalar atrizes para interpretar suas depoentes em Jogo de Cena –, expunha sua imagem e equipe para os espectadores. Jardim faz o mesmo, unindo as duas metodologias do diretor de Edíficio Master. Amor? aborda contratempos, contrapontos e extremos das relações amorosas com bastante naturalidade – resultado de uma ótima direção de atores. Temas delicados como a violência doméstica, a fuga no uso de entorpecentes e a vida cômoda e submissa são pautados sem rodeios, sempre justificando a escolha de reconstituir com atores os depoimentos dados por pessoas que protegidas pelo anonimato podem expor, com detalhes, suas intimidades.
Por conta de sua forma, o longa pode passar longe da originalidade, mas domina o espectador pela força de seus depoimentos e primorosas atuações. Entre questões freudianas, no amor, sem a interrogação, vivemos em constante identificação, por menor que ela seja. E não seria diferente neste caso, mesmo questionando sua existência.
AMOR? (Idem, Brasil, 2010) Direção: João Jardim Roteiro: João Jardim Elenco: Lilia Cabral, Eduardo Moscovis, Claudio Jaborandy, Julia Lemmertz Duração: 100 min Distribuição: Copacabana Filmes
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