Sessão Naftalina: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Woody Allen, 1977)
Texto por Natália Alonso
Woody Allen, diretor, ator e roteirista tachado por muitos de ‘pseudo-intelectual’. Pudera, com este par de óculos, filmes sempre envolvendo sua idolatrada cidade, Nova Iorque, e personagens inteligentes, problemáticos e bipolares, não poderia ser diferente ao olhar de quem não conhece a fundo sua obra. Pois bem, de pseudo o cineasta só tem o ‘ar’. Roteirista de 66 títulos já lançados, incluindo documentários e curtas-metragens, Allen é indiscutivelmente bom no que faz.
“I would never want to belong to any club that would have someone like me for a member.” That’s the key joke of my adult life, in terms of my relationships with women. – Alvy Singer
Em ‘Annie Hall’ – ‘Noivo Neurótico, Noiva Nervosa’ o diretor mergulha nas discussões sobre relacionamento, Alvy Singer (personagem de Woody Allen) é um humorista que faz terapia há muitos anos. Neurótico, impaciente e Judeu, Singer vive de questionamentos. Ao conhecer Annie Hall (Diane Keaton) uma bela cantora em início de carreira, se apaixona. A película gira em torno da relação complicada dos dois e suas conseqüências. Traições, discussões intermináveis e pensamentos confusos projetados pela mente conturbada do humorista.
Para estes que consideram o estilo de Allen repetitivo, Manhattan, Judeu semi fracassado, hipocondria, mau humor e mulheres, muitas mulheres para o autor, digamos, desprovido de beleza: o longa vai muito além dessas ‘coincidências’. Venceu o Oscar nas categorias de Melhor Atriz, Melhor Diretor, Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. E que roteiro, diga-se de passagem! Inteligente, refinado, sarcástico e com a dose certa de humor negro característica do realizador.
Alvy Singer tem a típica ótica dos relacionamentos comuns: quando tem a pessoa ao seu lado, implica, irrita-se e encontra incontáveis defeitos; quando a perde, coloca-a num pedestal como a materialização da perfeição.
No mesmo estilo Manhattan e Hannah e Suas Irmãs são outras duas ótimas indicações. Embora, nenhuma comédia/drama supere Annie Hall, há os que dizem que é a obra prima de Woody Allen. Assim como o mestre Mike Nichols, outro perito em relacionamentos (Quem tem Medo de Virgínia Woolf, A Primeira Noite de um Homem, Closer – Perto Demais), Woody retrata artisticamente as relações mais próximas da realidade: nem sempre o final é feliz, intimidade demais estraga as coisas e para que a união entre duas pessoas dê certo, gostar, apenas, não é suficiente.
I thought of that old joke, y’know, the, this… this guy goes to a psychiatrist and says, “Doc, uh, my brother’s crazy; he thinks he’s a chicken.” And, uh, the doctor says, “Well, why don’t you turn him in?” The guy says, “I would, but I need the eggs.” Well, I guess that’s pretty much now how I feel about relationships; y’know, they’re totally irrational, and crazy, and absurd, and… but, uh, I guess we keep goin’ through it because, uh, most of us… need the eggs. (Eu me lembrei da velha piada, do cara que vai ao psiquiatra e diz: “Doutor, meu irmão é maluco, acha que é uma galinha.” E o médico pergunta: “Por que é que não o interna?”. E ele responde: “Eu internaria, mas preciso dos ovos”. Assim é como me sinto sobre relacionamentos, eles são completamente irracionais, malucos, absurdos, mas continuamos, insistimos porque a maioria de nós precisa dos ovos.) – Alvy Singer
O roteirista, assim como Manoel Carlos (aka Maneco) fez com o Leblon, transformou a cidade de Nova Iorque em um símbolo de sua obra. Mas, diferentemente do escritor de novelas que tenta exaustivamente fazer algo profundo e tocante, mas não vai além do ‘ordinário’, com doses carregadas de melodrama, infinitas lições de moral e conversas superficiais entre Zé Mayer e qualquer Helena, Woody Allen alcança, com toque bem humorado, algumas verdades incontestáveis comportamentais. O espectador assiste e pensa: ‘Assim eu me sinto’. Precisa mais?
*Memorável cena em que Alvy Singer está na fila do cinema e um pseudo-intelectual atrás dele faz críticas em alto e bom som. O ‘chato’ comenta sobre Marshall McLuhan, um filósofo canadense, Singer se irrita e chama o próprio McLuhan para tirar satisfações. Não seria ótimo se na vida fosse assim?
NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (Annie Hall, USA, 1977) Direção: Woody Allen Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman Elenco: Diane Keaton, Woody Allen, Tony Roberts, Shelley Duvall Duração: 93 min
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Uma resenha desse filme chega a ser um pleonasmo. Desnecessário, não acha?
Julian (HAM), por ser um filme hors concours, análises dele podem cair em redundância, mas não acho que seja o caso desta aqui postada.
Acho que nenhuma resenha é desnecessária, não importa quão óbvios são os filmes, as visões são sempre diferentes e sempre vai existir alguém que não viu, buscando onde ler sobre.
Se esta é desnecessária, todas são.
esse filme é lindo :~~~. também acho que resenha de filmes mais clássicos são legais, apesar que o público de blogs de cinema como este já devem ter visto e as resenhas acabam sendo obvias…. mas pra cinema tudo é sempre válido, né?? adoooreeeiii
O filme é lindo mesmo, Maria. Volte sempre!
Natália resenha de Kill Bill KD? Quase sempre leio suas resenhas, sempre adoro.
Kill Bill naftalina? Pô, me achei um idoso agora!
A Alonso sabe do que está falando, muito bom!
HAHA posso fazer de Kill Bill fora da Sessão Naftalina!
Ok, fora da sessão Naftalina… que seja. Faça, e zaz zaz. HAHAHA 1bj