Sessão Naftalina: O Sétimo Selo (Ingmar Bergman, 1957)

18 de fevereiro por Pedro Tavares | 13 comentários

Texto por Natália Alonso

Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu por cerca de meia hora. Então vi os sete anjos diante de Deus, e a eles foram dadas sete trombetas. (Apocalipse, 8:1)

Ingmar Bergman – Persona; Gritos e Sussurros; Morangos Silvestres – escreveu “Uma Pintura em Madeira” quando ainda lecionava na Escola de Teatro de Malmö. A peça foi adaptada para o cinema em 1956, dando origem à película “O Sétimo Selo”, que viria a receber o Prêmio do Júri em Cannes e tornar-se uma de suas obras mais memoráveis. O autor combina a morbidez, em partes devido ao filme se passar na Idade Média, com monólogos profundos e densos, que revelam transtornos, angústias e aflições de cada personagem. Mistura seu estilo único com realidade e ficção na medida certa. Influencia-se, cria, recria. Tudo polido no mais requintado drama.

Antonius Block (Max Von Sydow – conhecido por interpretar o Padre Merrin em O Exorcista) é um cavaleiro que retorna das Cruzadas¹ para a Suécia, com Jons (Gunnar Björnstrand), seu escudeiro. A peste negra² (também chamada de morte negra) havia tomado conta e a morte parecia ser o destino próximo da maioria. Sendo assim, Antonius, ao encontrar a Morte (Bengt Ekerot), resolve ganhar tempo desafiando-a para uma partida de xadrez. No caminho, Block e Jons encontram muitas pessoas. Um grupo de atores que tenta levar alegria em meio à tanta tristeza e enfermidade. Mia (Bibi Andersson – lembrada por sua notável performance em Persona) era a esposa do malabarista, delicada, romântica, embora com pés no chão. Já Jof (Nils Poppe), seu marido, compunha canções e tinha visões, consideradas delírios por Mia. Avistou Virgem Maria, a própria Morte e até sua dança, na famosa cena final. Acompanhados de seu filho, de um ano de idade, Mikael e do ator principal Skat (Erik Strandmark), eles seguiam rumo ao festival de Elsinore. Através de encontros e desencontros, durante a caminhada, conhecem Raval (Bertil Anderberg), homem que rouba dos mortos e surge em momentos estratégicos trazendo à tona discussões profundas sobre Deus, religião, morte. Por meio de Raval, Jons (o escudeiro) conhece uma garota (Gunnel Lindblom) e a salva das mãos do ladrão. Skat foge com Lisa (Inga Gill) a mulher do ferreiro (Åke Fridell). No percurso encontram procissões de monges carregando a cruz, pessoas se autoflagelando, fome, injustiça e uma mulher condenada à fogueira por ser considerada “bruxa”. Enquanto Antonius questiona, pensa, repensa e reflete sobre a existência de uma divindade, como todo ser humano de carne e osso que se põe a pensar na vida faz até hoje.

A fé é uma aflição dolorosa. É como amar alguém que está no escuro e não sai quando a chamam. – Antonius Block

A Idade Média foi um período em que a maioria das coisas era explicada e entendida através da religião, a visão teocêntrica do povo condenado pela peste, que, além de treinado e obrigado a acreditar na existência de um Soberano, agarrava-se nas esperanças de que Ele poderia salvá-los das pragas e tristezas que os afligiam. O período (séc. XIV), além de tudo, era marcado também por crise no Sistema Feudal, o que gerava caos. O diretor consegue transmitir esta essência, insere o espectador no contexto histórico e o incita a ver com outros olhos tudo que havia lido apenas em livros de História.

O amor nada mais é do que a luxúria pura… enganos, mentiras, traições e tolices. (…) O amor é a pior das pestes, mas morrer de amor seria um prazer. (…) Se tudo é imperfeito neste mundo imperfeito, então o amor é perfeito em sua imperfeição. (Jons – o escudeiro)

O roteiro é formidável. Minucioso, linear, filosófico. Os personagens traduzem de forma poética os seus mais profundos pensamentos. A fotografia é um contraste das belas paisagens suecas com a destruição, o horror e a morte eram frequentes na época, está disposta de forma harmônica e se encaixa perfeitamente na obra. Paisagens, que dão o ar bucólico à trama e são filmadas durante longas tomadas, lembrando o estilo de um conhecido cineasta italiano: Pasolini.
O filme é repleto de simbologias, referências e intertextualidades. O nome em si “O Sétimo Selo” faz referência ao livro do Apocalipse, Bíblia – Novo Testamento e marca o início do mesmo com um trecho retirado do capítulo 8. A trilha sonora é precisa. Em momentos cruciais soa como um estrondo é viva, agressiva, nos calmos é suave, quase como uma brisa.
As atuações, embora ótimas, não são o ponto forte da película. Trata-se da unção de elementos impecáveis, que resulta neste maravilhoso pedaço de arte, não apenas visto e ouvido, mas sentido. Obviamente, forte para a época em que foi lançado, levanta questões atualmente discutidas e que, provavelmente, serão pauta por muito tempo.
Bergman tem esse poder, de arrancar palavras e silêncios, sem conseguir ser explicado de forma imparcial. Analisá-lo é como dar significado aos olhos enigmáticos da Capitu de Machado, desvendar sem sombra de dúvidas o secular mistério do romance. É desmerecê-lo. O Sétimo Selo é pura Sétima Arte e isto é tudo que se precisa saber.

Eu os vejo! Lá no céu tempestuoso. Todos eles. O ferreiro e Lisa, o cavaleiro, Raval, Jons e Skat. E a severa mestre Morte os convida para dançar. Quer que todos dêem as mãos para formar uma longa fila. A Morte vai na frente com a foice e a ampulheta, mas Skat vai atrás com sua lira. Eles vão dançando, se distanciando do sol… em uma dança solene. Dançam rumo à escuridão e a chuva cai em seus rostos, levando as lágrimas salgadas da face.(Jof – o malabarista)

O SÉTIMO SELO (Det sjunde inseglet, Suécia, 1957) Direção: Ingmar Bergman Roteiro: Ingmar Bergman Elenco: Gunnar Björnstrand, Max von Sydow, Bengt Ekerot, Nils Poppe, Bibi Andersson Duração: 96 min

¹Cruzadas: Expedições organizadas pela Igreja, a fim de libertar, para o povo cristão, Jerusalém (também conhecida como Terra Santa), que na época estava sob domínio dos turcos seljúcidas.

²Peste negra: Também conhecida como peste bubônica, doença transmitida por pulgas, ratos e outros roedores. Acredita-se que durante a Baixa Idade Média um terço da população européia morreu em decorrência da peste.

Posts relacionados:

Doidão
Distrito 9
Em DVD: Vejo Você no Próximo Verão

Tags: , , ,

13 comments

  1. Great blog! Do you have any hints for aspiring writers? I’m planning to start my own blog soon but I’m a little lost on everything. Would you recommend starting with a free platform like WordPress or go for a paid option? There are so many choices out there that I’m totally confused .. Any recommendations? Many thanks!

  2. natalialx

    Sensacional esse texto! Sempre tive curiosidade em saber sobre esse filme, vejo essa figura careca em varios livros sobre cinema (particularmente, tenho medo, rs). Quero assistir!

    Abs!

  3. Guilherme

    Parabens pelo texto, realmente Bergman era um gênio, fica claro em alguns de seus filmes um estilo teatral. Eu ja prefiro os filmes que viriam anos depois, Fanny a alexander e Gritos e sussurros são obras máximas do cinema, foi momentos em que a sétima arte foi a seu ápice

  4. Obrigada Natalia!! E Guilherme concordo com você, embora ache que O Sétimo Selo tem algo a mais, assim como Persona. Penso que é o 'extraordinário'.

  5. Guilherme

    Nessa fase ele era mais existencialista, onde a originalidade era maior, homens questionando a existencia de Deus como em Luz de Inverno e A fonte da donzela. Será que tem alguma chance de um vê Tarkovski no site?

    • cinemaorama

      Desculpe me meter ai no debate, mas acredito que a obra mais "existencialista" do Bergman seja "Persona". Natália, Tarkovski no próximo texto? Abs!

  6. Guilherme

    Sim, preciso rever Persona, os filmes em P&B são da fase existencialista, digamos que no colorido ja foi mais para conflito familiar. Sonata de Outono onde alonga os dialogos, mas não fica chato, isso é para poucos, olha da para falar da perfeição de todas as obras do Bergman

    • cinemaorama

      Concordo, Guilherme. "Saraband" tem a mesma delicadeza de "Cenas de um Casamento", por exemplo, com o detalhe da disparidade de visões do mesmo assunto.

  7. Próximo texto é Woody Allen! Já está encaminhado. Tarkovski vem depois, Andrei Rublev? Solaris?
    Abraço!

  8. Guilherme A.

    Nossa" falar de Andrei Rublev tem que ser ''foda'', junto com O encouraçado… são as maiores realizações do cinema sovietico, não considero melhor que Stalker e O sacrificio, mas em Andrei Rublev foi o ápice do russo.

    • cinemaorama

      Guilherme, não sei o da Natália, mas o meu predileto dos soviéticos é "O Homem com a câmera" do Vertov.

Leave a comment


Copyright © 2011 Cinema O Rama

Tema desenvolvido por João Ximenes - Powered by Wordpress

Assine o RSS