Cisne Negro

02 de fevereiro por Pedro Tavares | 15 comentários

A intensidade com que Darren Aronofsky rege a transformação do belo em trágico através da literal metamorfose do artista em arte utilizando aspectos distintos e aparentemente sem encaixe coroam o choque em Cisne Negro.

Aronofsky está à procura da representação do abstrato, do caótico, da interminável guerra da autodestrutiva mente de Nina (Natalie Portman), seja nas imagéticas metáforas – onde boa parte delas acopla elementos do suspense e até mesmo do gore – ou na decupagem de seus planos, que praticamente coreografa sequências de câmera na mão e planos mais abertos, como se cada cena guardasse seu momento de bonança e tempestade.

O balé, fonte de inspiração do roteiro originalmente escrito por Andrez Heinz, justifica tamanha distinção de elementos usados pelo diretor. É possível compilar cenas tensas, fortes com a sutileza dos passos de “O Lago dos Cisnes”. O rito de passagem do cisne branco para o cisne negro requer calos, dor, descobertas, decepções e a chance para o recomeço.

Justamente neste ponto que Cisne Negro se transforma em campo de qualquer possibilidade, do belo, do grotesco, de saídas tacanhas ou geniais dependendo de sua interpretação. A graça é essa. Interagir dinamicamente com o improvável.

CISNE NEGRO (Black Swan, EUA, 2010) Direção: Darren Aronofsky Roteiro: Andrez Heinz, Mark Heyman, John McLaughlin Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Winona Ryder Duração: 108 min Distribuição: Fox

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15 comments

  1. Um filme que, infelizmente, não é o favorito da Academia e provavelmente perderá para o insosso 'A Rede Social' mas que, para mim, é o melhor filme da época. É perturbador, insano, genial… é Aronofsky e sabemos que todo gênio é incompreendido em seu tempo. E sabemos também que nem sempre os filmes premiados pelo Oscar são os mais memoráveis.

    É filme de arte, nem todos compreenderão, embora atualmente a moda seja gostar do bizarro e muitos se agarraram ao longa pela protagonista queridinha.

  2. cinemaorama

    Gostei do adjetivo para "A Rede Social". "Cisne Negro" tem essa dicotomia interessante com a junção da acessibilidade narrativa e das crises-quase-abstratas da protagonista. O que mais instiga no filme é a sua pulgência, na minha humilde opinião.

  3. Pretendo ver o filme antes de falar qualquer coisa. MAS, como realmente não consigo permanecer calada, espero que a atuação da Nat (Natalie Portman para os menos íntimos) me deixa de boca aberta, assim como sua beleza.

    • cinemaorama

      Paola, ela é linda mesmo. E sua atuação já a rendeu o Globo de Ouro. O Oscar, pelo visto, é questão de tempo.

  4. Direção e edição à parte, Natalie deu um show de dupla identidade. A fragilidade do cisne branco de Nina quase me fez esquecer todas as personagens fortes e temperamentais que tinha feito anteriormente.
    Não dá pra deixar de falar de como usar efeitos de forma inteligente e sem clichês, misturando o drama ao suspense e ao surrealismo.
    Adoro ficar confusa e o filme conseguiu fazer isso comigo.
    Mas confesso estar bem dividida em meu favoritismo entre "Inverno da Alma" e "Cisne Negro", entre Natalie e a jovem Jennifer… como quase sempre eu durmo frustrada com os resultados do Oscar… rs

    • cinemaorama

      Caren, minha escolha é da Jennifer por um só motivo: ela rouba o filme. O personagem dela, apesar de protagonizar a história, poderia ser fragilizado por todas aquelas tragédias, mas a atuação dela é visceral e assustadora. A Natalie tem o filme pra ela. É lógico que tem muitos méritos, mas o resultado do filme não deve interferir na minha escolha hehehe. Enfim, "Cisne Negro" é a dose perfeita de um bom desenvolvimento narrativo e elementos de gêneros distintos. Filmaço.

  5. Lpe Hasselmann

    O culto a forma é presentear alguém com algo roubado do quarto do aniversariante. A vontade de satisfazer é nobre, mas o eterno retorno do agradecimento faz de todos prisioneiros em liberdade condicional do artifício. A chave da sua cadeia é seu inimigo oculto. Um quarto negro que você nunca esteve antes. É escuro, causa esbarrões, que trazem hematomas. Mas você vai sentir o seu corpo doer ao tatear os objetos. É preciso sentir os contornos pra achar algo belo, digno se der entregue ao próximo. E no dia da troca dos presentes, você vai conseguir ver onde estão o hematoma, descobrir que foi causado pela quina de uma mesa, e se surpreender com com a escolha Quem receber vai ficar com ele, não tem loja pra fazer a troca. Cisne Negro mostra que não se conhece a vida olhando pro espelho, tem que tatear a dor no escuro.

    • cinemaorama

      Lpe, suas observações são relevantes e imprimem a relação universal (público) com o longa.

      • Lipe Hasselmann

        De certa forma, a arte, no caso o balé, é uma forma de diálogo sincero com o mundo. Ela Se não for sincera, é produto. E a técnica, a forma, por sí só, não sustenta a atividade enquanto arte. Me parece que o filme discute, usando a arte, o quanto você tem que se descobrir e abrir caminhos dentro do seu ser, para ter uma relação completa com as coisas. Se a Nina se fecha nela mesma, não seria artista nem uma pessoa completa nunca. Afinal, a apresentação não se restringia ao Cisne Branco. Pra superar qualquer coisa na vida, temos que nos permitir enfrentar um lado aparentemente negro. A arte nada mais é do que uma materialização da vida. Você vê outra interpretação ou intenção muito diferente dessa no filme, Pedrinho? abc, garoto. o site tá demais.

        • cinemaorama

          Mas o produto pode ser arte também, Lipe. Concordo com sua interpretação. Abraços e volte sempre, garoto! :)

          • Lipe Hasselmann

            Sim, pode ser produto. Não tenho absolutamente nada contra ter dinheiro e interesses mercadológicos envolvidos, desde que não desvirtue a essência do objeto de troca. Os produtos são afetados por uma tendência a vulgarização, mas não necessáriamente têm que ser vulgar. O Cisne Negro é um caso que foge a regra.

            vlw, Pedrinho, abc.

          • cinemaorama

            É verdade, por isso tanto espanto ao ver um filme que traz conteúdo e possui potência no mercado. De fato, Cisne Negro não é só escapismo ou exercício afetado do diretor.

  6. Achei impressionante como o Darren fez um filme praticamente preto e branco – como se vê na direção de arte e fotografia e figurino -, predominado por uma oposição dessa cores e da imagem refletida e fragmentada. E isso deixou a experiência muito mais interessante, como uma forma de materializar aquela obsessão da Nina. Adorei o filme, daqueles que a gente fica sem saber o que fazer quando acaba, muito intenso. Quero assistir de novo, uma vez não bastou.
    O bom de vir aqui é não me deparar com um texto genérico sobre um filme. Legal, pedro.
    []s!

    • cinemaorama

      Jeff, tive a mesma impressão sobre a estética mas escolhi não abordar para não me estender demais. Sobre a crítica, muito obrigado e apareça mais vezes! :)

  7. Como vai? Achei bastante aplausível seu trabalho na web, e resolvi escrever esse texto! Parabéns por isso, e fique com sucesso!

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