A Marca do Noir: Pacto de Sangue (Billy Wilder, 1944)

23 de fevereiro por Pedro Tavares | 3 comentários

No último filme apresentado aqui, falei dos grandes feitos de Orson Welles em “A marca da maldade”, como ator e diretor. Estilisticamente, o seu “Cidadão Kane” (Citizen Kane, 1941) reverbera fortemente aqui em “Pacto de Sangue” (Double Indemnity, 1944), de um Billy Wilder com seus 38 anos de idade, que acabou por aterrissar no cinema depois de abandonar uma Alemanha que acabaria por ser infectada por um totalitarismo feroz.

O agente de seguros Walter Neff (Fred MacMurray), da Pacific All Risks vai visitar um cliente, o sr. Dietrichson, para obter a renovação das apólices do seguro de dois automóveis: um Lasan e um Plymouth. Rotina. Mas o que realmente lhe chamaria a atenção e viraria sua vida pelo avesso seriam a Sra. Phylis Dietrichson (Barbara Stanwick), evidentemente loira, e seus tornozelos.
Um dos maiores destaques do filme é o texto; os diálogos são enxutos e certeiros, como tiros, disparados pelas mãos habilidosas de Raymond Chandler (em parceria com o diretor Billy Wilder, que também assina o roteiro), mestre da literatura policial. Mas aqui não há Philip Marlowe, há um cerebral Ness, que se destaca entre seus pares na companhia por seu desempenho exemplar e conta com o mal-disfarçado reconhecimento de seu superior imediato, Barton Keyes (Edward G. Robinson). Porém, a aproximação de Ness e Phylis possibilita o desenlace do gênio malévolo desta, insatisfeita com sua vida e com seu casamento. Embriagado pelo desejo de ter para si aquela loira fatal, Ness abraça a ideia da Sra. Dietrichson e ainda trata de incrementá-la com a possibilidade de receber uma indenização duplicada da companhia de seguros: o incidente fatal que faria de Phylis uma viúva deveria ocorrer em um trem.

Particularmente, acho fascinantes as tramas que se desenrolam ao longo dos trilhos da linha férrea: a condução do texto divergindo do compasso linear das composições, como é o caso de um Noir de Alfred Hitchcock, “Pacto Sinistro” (Strangers on a train, 1951) e que também conta com o auxílio luxuoso da escrita de Raymond Chandler na elaboração do roteiro. Tendo em mãos a ideia inicial, Ness trata de tomar todas as precauções para que nada o surpreenda depois da execução do crime; ele planta cuidadosamente todos os álibis, com maestria, revisando cada detalhe. Seria possível controlar os fatos? Inicialmente, parece-nos que sim: tendo tudo sob controle, configura-se um crime perfeito. Mas a condução marcante de Billy Wilder, aqui em seu quarto filme, se faz bastante presente nos pontos de virada da trama que cada personagem traz consigo: o Sr. Jackson de Melford, Oregon (Porter Hall); as informações valiosas dadas por Lola Dietrichson (Jean Heather) e até mesmo o papel aparentemente irrelevante de Nino Sachetti (Byron Barr) nos acontecimentos.

Para além da ótima narrativa, aqui ambientada pelo protagonista masculino, em over e retrospectivamente, assim como em um grande clássico dirigido por Wilder seis anos depois, “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, 1950), também é possível distinguir cenas inspiradas, como naquela que se passa no escritório do Sr. Edward S. Norton, presidente da companhia, em reunião com a Sra. Dietrichson já viúva, Neff e Keyes. Outra cena de destaque é o “encontro às onze” entre Ness e Phylis, que transcorre na penumbra.

A analogia que Neff faz para a situação em que se envolveu é a mesma utilizada por Keyes para esquadrinhar o “caso Dietrichson”: os executantes do crime embarcaram juntos em um trem do qual não poderiam saltar arbitrariamente. Em uníssono com este pensamento estava Carlito Brigante, personagem com mais tarimba no mundo do crime, vivido por Al Pacino em “O Pagamento Final” (Cartlito’s Way, 1993, dirigido por Brian De Palma): para certos caminhos escolhidos, não há volta.

PACTO SANGUE (Double Indemnity, EUA, 1944) Direção: Billy Wilder Roteiro: Billy Wilder, Raymond Chandler Elenco: Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Barton Keys, Edward G. Robinson Duração: 107 min

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