Sessão Naftalina: A Cor Púrpura (1985)

28 de janeiro por Pedro Tavares | 1 comentário

Texto por Natália Alonso

O romance de Alice Walker todo escrito em Black English¹ foi lindamente representado no cinema por Steven Spielberg e teve seu roteiro adaptado pela própria autora juntamente com Menno Meyjes. O diretor, dono de uma extensa lista de excelentes películas: “Encurralados”, “Tubarão”, “E.T.” e a que muitos consideram sua obra prima “A Lista de Schindler”, não peca em um só momento em “A Cor Púrpura”. Doce, cativante, ao mesmo tempo que é real, comovente nos causando empatia pela personagem principal Celie (interpretada de forma belíssima por Whoopi Goldberg).

No livro, Celie escreve cartas a Deus. O filme é baseado nas cartas, a personagem, analfabeta inicialmente, é violentada pelo pai, acaba tendo dois filhos com ele e ficando estéril. O pai se livra das crianças, mentindo para a jovem sobre o destino das mesmas. Celie, e sua irmã Nettie (Akosua Busia) possuem uma ligação muito forte e são separadas pelo destino, quando Mr. – o marido de Celie expulsa Nettie de sua casa – após ter tentado abusar da moça, que era com quem realmente desejava se casar. Viúvo, pai de quatro filhos, trata Celie com desprezo e a espanca. Neste momento, Celie promete que a única coisa que a impedirá de escrever para a irmã é a morte. Shug Avery (Margaret Avery), uma cantora de blues mal vista nas redondezas, é levada doente para a casa por Mr. e é cuidada carinhosamente por Celie, que a admira muito. A reviravolta em sua vida ocorre quando Shug a encoraja a enfrentar Mr., descobre que suas cartas nunca foram enviadas à irmã e a leva embora do sítio, localizado na Geórgia. Com destaque para a atuação de Oprah Winfrey – que interpreta Sofia – a esposa de Harpo (Willard E. Pugh) filho mais velho do Mr., mandona e dominadora, acaba sendo presa e tendo a sanidade mental abalada.

Embora o enredo seja voltado para a personagem principal, todos os acontecimentos que envolvem os “coadjuvantes” da trama possuem desfecho satisfatório, são bem elaborados, detalhados e emocionam igualmente, tornando-os tão especiais quanto Celie. A reconciliação de Shug Avery com seu pai, pastor de igreja, o retorno de Sofie aos filhos, a solidão do Mr. após a partida da mulher. É uma história de luta de vida, de amor incondicional e de redenção.

Um misto de tristeza e alegria, um toque de comédia na medida certa e uma impecável fotografia marcam o longa. O sotaque afro-americano – uma mistura do sotaque sulista e do dialeto africano – o Black English, que é o destaque do livro, não é esquecido em nenhum momento.

“A Cor Púrpura” perdeu os 11 Oscars a qual foi indicado, a categoria de Melhor Filme ficou com “Entre Dois Amores” de Sidney Pollack, de Melhor Atriz com Geraldine Page por “O Regresso Para Bountiful” – Whoopi Goldberg havia sido indicada, Oprah Winfrey também perdeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para Anjelica Huston em “A Honra do Poderoso Prizzi”, a Melhor Fotografia ficou também com “Entre Dois Amores”, assim como Melhor Roteiro Adaptado. Injusto, sem desmerecer os concorrentes, que a película não tenha ganhado em nenhuma categoria sequer, não faltou merecimento.

Não é toda obra que pode ser chamada de “obra” e consegue entreter o espectador por quase 3 horas. O mérito é uma combinação da audácia e feminilidade da autora e seu fabuloso enredo, da experiência e sensibilidade do diretor e do carisma e talento do atores.

Uma lição de vida sem o “politicamente correto” dos finais hollywoodianos, uma história de pessoas imperfeitas – humanas – que se encontraram em meio a obstáculos em suas jornadas, todas tocadas por Celie, a jovem analfabeta que tinha muito a ensinar.

¹Black English: Dialeto afro-americano, falado por negros, especialmente do sul dos EUA.

A COR PÚRPURA (The Color Purple, USA, 1985) Direção: Steven Spielberg Roteiro: AliceMenno Meyjes Elenco: Danny Glover, Whoopi Goldberg,  Oprah Winfrey Duração: 154 min

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