A Marca do Noir: A Marca da Maldade (1958)
Texto por Marco Bandini
O “Noir”, enquanto gênero, existe? Podemos colocar em evidência determinadas características narrativas e estilísticas que o definem, sempre em torno de um tema central: o crime. Dentro dos aspectos narrativos, encontramos policiais anti-heróis, com métodos nada convencionais, tramas bem elaboradas, loiras sedutoras e questionamentos morais. Quanto ao estilo, há forte presença do expressionismo alemão, que sobrepunha a subjetividade à razão, dentro do contexto histórico germânico de desolação após o insucesso na Primeira Guerra; dessa forma, o papel das sombras e da luz são determinantes na configuração das realizações do gênero. Quanto ao termo, cujo significado é “negro”, sua aplicação é anacrônica, ou seja, foi atribuída retrospectivamente aos filmes inspirados em romances policiais “pulp” dos anos 1930. O contexto histórico em que se aponta seu surgimento é o pós-guerra (década de 1940) e parece surgir enquanto um posicionamento artístico que buscava purgar a culpa e as contradições norte-americanas após a Segunda Guerra. De qualquer maneira, o que o legitima o estilo é o grande número de realizações memoráveis, como é o caso de “A marca da maldade”, filme que conta com a direção e atuação inspiradas de Orson Welles, que trouxe diversas inovações estéticas com o seu célebre e monumental “Cidadão Kane”, de 1941.
A abertura em plano-sequência é uma das maiores riquezas deste filme; acompanhar o Cadillac, vê-lo parar no cruzamento e na cabine policial da fronteira, parado, em meio à uma conversa trivial, mostra que a mão de Welles estava afiada, mesmo após o desgaste com a Columbia Pictures por conta do filme “A dama de Xangai” (com uma Rita Hayworth de cabelos curtos e loiros). A filmagem e pós-produção de “A marca da maldade” também foram conturbadas, havendo divergências entre Welles e a Universal, responsável por limar dezesseis minutos da montagem concebida pelo diretor.
Hank Quinlan (Orson Welles) aparece pela primeira vez no filme de maneira soberba, opulenta, reforçado pela grandiosidade da câmera em contra-plongée (câmera filmando de baixo para cima) – outra grande marca do “Film Noir”. A degradação física de Welles dá o verniz material perfeito para o desenvolvimento do personagem criado por “Whit Masterson” (pseudônimo dos escritores Robert Allison Wade e H. Bill Miller, autores do livro “Badge of Evil”, publicado em 1956): o decadente, desiludido, sarcástico e sobretudo, preconceituoso, capitão de polícia Hank Quinlan, cuja decadência é atestada pela personagem de Marlene Dietrich, Tanya, quando afirma que mal o reconhece. O filme ainda traz a belíssima Zsa Zsa Gabor, que recentemente teve seu nome bastante veiculado na mídia devido à amputação de sua perna.
O incidente do início do filme abre precedente para que as autoridades americanas intercedam, haja visto que dois cidadãos americanos foram vitimados, mostrando a naturalidade costumeira com que o Estado norte-americano interfere em soberanias alheias; Quinlan é um sujeito amargurado pelo próprio passado e bastante preconceituoso com os mexicanos; despreza determinados padrões éticos de sua profissão, haja visto a forma com que interroga seu maior suspeito, o mexicano Sanchez, genro do falecido Rudy Linnekar. Teria Sanchez mandado o sogro pelos ares para herdar, via união estável, os bens dos Linnekar?
Seria bastante plausível, não fosse a astúcia do detetive Miguel Vargas (Charlton Heston), que fica alerta em relação à Quinlan quando vê o capitão plantar provas falsas para concluir o inquérito. O antagonismo entre os dois policiais se acirra e Vargas investiga rastros de Quinlan por conta própria, ao passo que sua esposa, Susan Vargas (Janet Leigh), passa a correr risco, então isolada no hotel Mirador. Janet Leigh não teria muita sorte com seus personagens em hotéis: na pele de outro personagem, Marion Crane, em Psicose (Alfred Hitchcock, 1960), ela conheceria o hotel da família Bates.
Enquanto isso, Joe Grandi (Akim Tamiroff) busca a realização de sua vingança contra o detetive Vargas (maquiado de forma quase caricata, por Bud Westmore), que prendera seu irmão, Vic Grandi. Tendo a sra. Vargas como refém de seus capangas e acreditando em uma aliança com o corrompido capitão Quinlan, Joe Grandi parece estar bem próximo de seu objetivo de tirar o detetive Miguel da jogada. Quanto mais a trama se desenrola, vai ficando cada vez mais estreito o confronto entre luz e sombra, narrativamente. O filme é coroado em seu desfecho com a atuação magistral de Welles, que ainda esbanjou seu magnetismo pessoal ao trazer Marlene Dietrich, Joseph Cotten e Zsa Zsa Gabor para pequenas participações.
Enquanto grandes estrelas deste filme figuram a direção sofisticada de Welles, com bastante movimento e exploração de ângulos, a luminosidade ‘low-key’, que reforça o antagonismo marcado pelo ‘bem’ e pelo ‘mal’ coexistentes na trama, além das precisas intervenções musicais de Henry Mancini; tudo isso operando dentro da modéstia de um orçamento de 2 milhões de dólares, faz de “A marca da maldade” um film noir por excelência.
A MARCA DA MALDADE (Touch of Evil, EUA, 1958) Direção: Orson Welles Roteiro: Orson Welles Elenco: Charlton Heston, Janet Leigh, Orson Welles, Dennis Weaver Duração: 95 min
Posts relacionados:
Tags: colunas, Recomendações de Filmes




