Sessão Naftalina: A Garota da Fábrica de Caixa de Fósforos
SESSÃO NAFTALINA: A GAROTA DA FÁBRICA DE CAIXA DE FÓSFOROS (Das Mädchen aus der Streichholzfabrik, Finlândia, 1990)
Texto por Natália Alonso
Uma hora e oito minutos de uma sensação ruim no estômago, angústia e garganta seca. Essas são algumas das reações que o filme, dirigido pelo finlandês Aki Kaurismäki, causa. Destacando a interpretação de Kati Outinen – que recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes em 2002 por sua atuação em “O Homem Sem Passado”, também de Kaurismäki – está estupenda, transmite em seu olhar todo o sofrimento calado da personagem.
Iiris (Kati Outinen) vive com a mãe (Elina Salo) e seu padrasto (Esko Nikkari) na periferia de Helsinque, em uma casa de dois cômodos. Trabalha em uma fábrica de caixas de fósforos e, além de sustentar a família, também cozinha e faz todo o trabalho doméstico, mas não tem reconhecimento. Sai algumas vezes para dançar, mas acaba sentada no canto do salão, sozinha, como se fosse uma pessoa invisível. Certa vez, compra um vestido e é forçada a devolvê-lo pela mãe e seu padrasto. O único que parece se importar com a moça é seu irmão (Silu Seppälä), porém seu destino muda quando ela conhece Aarne (Vesa Vierikko) em uma boate, que, assim como os demais a trata com desprezo, pensando se tratar de uma prostituta. Porém, Iiris engravida, e, para sua surpresa, ao invés de apoio, recebe um cheque de Aarne para que ela cuide do aborto (se referindo ao bebê como “girino”). Revoltada com sua situação, ela resolve adotar medidas extremas.
Pouquíssimos diálogos, contato físico quase nulo e demonstrações de afeto praticamente inexistentes marcam a vida da personagem principal. A frieza está presente em todos os aspectos: nos diálogos, gestos, na fotografia e no clima nórdico cinzento.
Monótono, porém instigante, o longa fala de limites e obstáculos a serem ultrapassados, de pessoas que tentam superar traumas e decepções que nunca terminam. Realidade que dói ser vista, sem uma reflexão de Bergman, uma cena sangrenta de Tarantino, uma mistura de cores de Almodóvar ou um drama filosófico de Kieslowski e, sequer, trilha sonora. Vazia de tudo isso, consistente contudo.
Para repensar se certos atos podem ser justificados pelo sofrimento, se as vicissitudes da vida de uma pessoa, que já é infeliz por si só, podem levá-la a condições extremas, provando que o ser pode ser modificado pelo meio se não for forte suficiente.
O som ambiente é, em si, mais assustador que muitos gritos estridentes das películas de horror. O silêncio é tão perturbador quanto à obra, uma tortura psicológica. Guarde no bolso o seu costume de assistir a finais felizes enigmáticos de longas europeus (franceses, principalmente) e abra a mente para receber esse magnífico e perturbador pedaço de cinema genuíno.
A GAROTA DA FÁBRICA DE CAIXA DE FÓSFOROS (Das Mädchen aus der Streichholzfabrik, Finlândia, 1990) Direção: Aki Kaurismäki Roteiro: Aki Kaurismäki Elenco: Kati Outinen, Elina Salo, Esko Nikkari, Vesa Vierikko Duração: 68 min.
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Ótima dica, na década de noventa alguns filmes de Aki e de Mika Kaurismaki fizeram algum sucesso no circuito cult por aqui. Fiquei curioso em assistir este filme.
Até mais
Quero assistir, a Lume lançou em DVD aqui no Brasil, não é mesmo? Ainda que seja monótono, se for interessante e tiver algo a dizer, valerá a pena.
Gustavo, lançou sim. Esse e PUSHER do Winding Refn.
Devo concordar com você em tudo! Meu comentário via twitter com você foi precipitado sem considerar os aspectos que você explicou.
Com certeza eu já tinha considerado uma obra de arte, mas quando disse "esperava mais", acho que me referi a uma duração curta e a uma forma de tortura psicológica não tão intensa quanto eu esperava. Mesmo assim, gostei muito do filme. Preciso assistir agora "o homem sem passado".
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