Sessão Naftalina: Repulsa ao Sexo

18 de outubro por Pedro Tavares | 2 comentários

TEXTO POR NATÁLIA ALONSO

Linda como nunca, Deneuve mostra a que veio, interpretando com maestria e ar de grande atriz, aos 22 anos, o papel da jovem sexualmente reprimida, que mais tarde desenvolve um quadro de esquizofrenia por conta de sua “Repulsa ao Sexo”.

Polanski, que contrasta a beleza da atriz com o mórbido ambiente em que ocorrem as cenas mais pesadas, soube como transmitir tensão ao espectador durante as quase duas horas de filme.

Carol (Catherine Deneuve) é uma manicura que trabalha em um grande salão em Londres (Inglaterra). Tímida e introvertida, mora com a irmã mais velha (Helen, intepretada por Yvonne Furneaux), a qual recebe sempre o “namorado”, homem casado, pelo qual Carol sente repulsa. A bela moça, que atrai a atenção de muitos homens por onde passa, tem um admirador, Colin (John Fraser), apaixonado por ela e disposto a fazer qualquer coisa para tirar sua virgindade. Mas a jovem, por sua vez, não quer saber e chega até a lavar a boca após um beijo. A situação se agrava quando Helen resolve viajar com Michael (o “namorado”) e deixa Carol sozinha no apartamento e com o dinheiro do aluguel para entregar – atrasado – ao proprietário. Deste momento em diante, a loucura domina o resto da película, se o longa já parecia denso antes, após ser confirmada a possível “esquizofrenia” da personagem, torna-se mais lúgubre e lacônico possível.

Ultrapassando as barreiras dos filmes dramáticos, porém monótonos da época – em especial os europeus, o diretor consegue chegar a um equilíbrio em absolutamente todos os aspectos da obra: entre o ar angelical da personagem de Catherine Deneuve e sua personalidade perturbada, sua loucura; o salão de beleza, o ambiente londrino e o apartamento escuro e frio (aos olhos de Carol); o desejo dos homens pela manicura e seu “nojo” pelos mesmos.

Tomadas longas, sem diálogo ou qualquer palavra dita, apenas a expressão – muito marcante – da atriz. Os acessos de loucura de Carol, antecedidos por rachaduras na parede e tremores, projetados pela mente doentia da mesma, agregam ao filme o ar de “insanidade” que juntamente com os delírios de estupro da personagem, o transformam numa combinação perfeita de roteiro, trilha, atuação e enredo, o que podemos chamar de: cinema, hoje, muito raramente encontrado em sua forma genuína.

Lembrar da atuação de Deneuve em “A Bela da Tarde” e destacá-la unicamente por tal papel é um erro absurdo cometido por muitos, pouco conhecedores da sétima arte, obviamente. O talento da atriz é visível e digno de credibilidade já no longa de Polanski. O diretor, apesar de ter um estilo próprio, se mostra versátil e verdadeiro artista, quando trata de forma tão chocante a “loucura” e o “sexo”, principalmente para a época em que foi lançado. E o principal: sem torná-lo maçante.

No atual cenário cinematográfico de grandes produções e efeitos especiais, uma película gritante e sutil ao mesmo tempo se destaca. E faz acreditar que existem dois tipos de pessoa: as que a assistiram e as que não assistiram.

REPULSA AO SEXO (Repulsion, Inglaterra, 1965) Direção: Roman Polanski Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach Elenco: Catherine Deneuve, Ian Hendry, John Fraser, Yvonne Furneaux Duração: 105 min.

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2 comments

  1. Incrível, simplesmente. Parabéns.

  2. Adorei o texto.

    Assisti o filme recentemente, pois como fã de Roman Polanski, queria completar a tão aclamada Trilogia do Apartamento (Rosemary's Baby, The Tenant, Repulsion).

    Catherine Deneuve teve uma de suas melhores performances em A Repulsa do Sexo. O filme faz justiça a filmografia de Polanski e recomendo p/ todos que gostam do trabalho desse cineasta brilhante.

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