Festival do Rio: Um Lugar Qualquer / Tio Boonmee que Pode Recordar suas Vidas Passadas

06 de outubro por Pedro Tavares | 9 comentários

guarda chuva

Imagine uma tela branca. Imaginou? Ok. Agora imagine Sofia Coppola, com um pincel e tinta, fazendo vários traços coloridos e aleatórios pela tela. No espaço em branco, ela resolve contar a história de um ator em decadência emocional e ascensão profissional que tem sua rotina autodestrutiva interrompida pela presença da filha de onze anos. Poderíamos batizar esta obra de Hollywood ou Fazendo um Filme com os Amigos (só assim pra justificar o prêmio em Veneza), mas a diretora preferiu batizá-lo de Um Lugar Qualquer.

Coppola acerta bem no alvo. Sabe exatamente com quem ela cria diálogos. Com um público que se agradará ao assistir a versão italiana de Friends e ouvir um remix lounge de uma canção superestimada dos Strokes ou até mesmo invejar a camiseta da Sub Pop do protagonista. Um nicho específico, claramente, que divide do mesmo gosto e personalidade que os amigos da diretora. Um Lugar Qualquer é um esboço de história, talvez para fazer o paralelo com o vazio que a classe vive na rotina entre regalias e obrigações profissionais.

O uso da câmera estática com lentos movimentos de zoom reforça tal idéia, que é coroada pelo silêncio do protagonista Johnny Marco (vivido por Stephen Dorff). O choque interior com a mudança da rotina e da forma de se enxergar o mundo calham numa sutileza maior que a diretora procurou por todo seu filme. Consegue emocionar. Por acidente, mas consegue.

2star

UM LUGAR QUALQUER (Somewhere, EUA, 2010) Direção: Sofia Coppola Roteiro: Sofia Coppola Elenco: Stephen Dorff, Elle Fanning, Chris Pontius, Robert Schwartzman Duração: 98 min

Para quem conhece Mal dos Trópicos e Síndromes e um Século, principais obras de Apichatpong Weerasethakul, sabe a importância que o diretor dá a relação homem/natureza/espiritualidade. Tio Boonmee volta a esta analise onírica, desta vez mais acessível. O filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, pauta a relação de uma família com a morte quando entes falecidos resolvem reaparecer para cuidar de Boonmee, que tem sérios problemas nos rins.

A viagem é menos hermética e mais abrangente que a da força da natureza de Mal dos Trópicos e da homenagem do diretor aos seus pais em Síndromes e um Século, mas ainda tem sabor de requentado ao unir os dois extremos destes filmes em Boonmee. A crença do diretor mais uma vez é o pilar da história, que em menor quantidade dá abertura às múltiplas interpretações ao discutir a fragilidade humana.

O roteiro, sem originalidade, dá pano para a sempre impressionante plástica e os belos planos elaborados pelo diretor, que na última sequência sai de seu conforto para investigar a causa mortis do mundo. Bonito, mas avulso em relação ao resto do filme, que consegue respirar graças aos instigantes personagens e a lírica construção de diversos paralelos espirituais e sociais.

3star

TIO BOONMEE QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS (Loong Boonmee raleuk chat, Thailanda/Inglaterra/França/Alemanha/Espanha/Holanda, 2010) Direção: Apichatpong Weerasethakul Roteiro: Apichatpong Weerasethakul Elenco: Sakda Kawebuadee, Jenjira Pongpas, Thanapat Saisaymar Duração: 110 min

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9 comments

  1. Eu realmente espero um grande filme por parte da Coppola!

  2. Pedro Tavares

    Cleber, dá pra ver que você NÃO leu o post, hehehe.

  3. Brilhante teu comentário sobre o filme da Coppolinha. Ainda não vi o filme, mas espero isso aí, afinal conheço seus filmes. Entendi exatamente o que você quis dizer neste texto.

    Abs!

  4. Pelo texto, pensava que você iria dar uma cotação melhor ao filme da Sofia Coppola!

  5. Pedro Tavares

    Otavio, muito obrigado. Espero que consiga ver o mesmo quando o filme entrar em cartaz.

    Kamila…sério? hehehe

  6. acho q é a palavra q melhor descreve 'somewhere' é "vazio"

    protagonista vazio, conceito vazio, fotografia vazia com movimentos de câmera q levam de nada a lugar algum como vc muito bem observou.

    mais uma vez sofia tenta empurrar um filme q podia muito bem ser apenas um ensaio fotográfico para a revista vogue.

    o filme será superestimado como a canção dos despretensiosos strokes (espero q de pra sentir a ironia do adjetivo)

    mas ainda o q mais me impressiona é a falta de senso crítico, não sei c é uma implicância pessoal mas não da mais para engolir essas historinhas 'poor little rich girl/boy'

    • Pedro Tavares

      fran, concordo com você totalmente. não gosto dos outros filmes da sofia coppola. por acaso este foi o que mais me agradou, por um acidente (você que viu o filme sabe o pq deste acidente). espero que as pessoas comecem a dar atenção para outros novos diretores como o nicolas winding refn, por exemplo.

  7. Amo a expressão de Weerasethakul.

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