Festival do Rio: Amores Imaginários / Zona Sur

O cinema de Xavier Dolan é conceito e não conteúdo. Já tomava essa forma em seu debut em Eu Matei Minha Mãe, e agora em Amores Imaginários o diretor debanda em referências em diversos elementos de seu filme. Elas passeiam pela trilha sonora, nos figurinos, na arte, na decupagem… e lá estão Almodóvar, Truffaut e até Tarantino. Enfim, a possibilidade de reconhecimento de um nicho social que justifique o citado conceito é enorme já nos primeiros minutos do filme.
Como o nome entrega, Dolan conta uma história moderna, uma disputa pelo coração de Nicholas, um garoto mimado pelos pais e “super cult”. Os candidatos são os amigos Francis e Marie, que tem o acaso como maior inimigo. O filme acerta em seu desenvolvimento narrativo, cheio de elipses e bons momentos de humor (principalmente com os personagens ilustrativos, dando a idéia que o filme é uma reconstituição) e dão força extrema ao filme para não cair em suas próprias armadilhas.
O compromisso de ser prafrentex que o diretor tem com seu conceito, elimina qualquer chance de se aprofundar quando falamos em construção de personagens. Eles gostam de escritores, bandas, diretores, enfim, artistas em geral, fumam até os pulmões explodirem, evitam falar sobre opções sexuais e é isso. Não saberemos nunca qual era o objetivo da conquista de Nicholas, afinal. Se essa necessidade era comandada pelo ego ou pela carência.
![]()
AMORES IMAGINÁRIOS (Les Amours Imaginaires, Canadá, 2010) Direção: Xavier Dolan Roteiro: Xavier Dolan Elenco: Xavier Dolan, Niels Schneider, Monia Chokri, Anne Dorval Duração: 102 min
O terreno pelo qual o diretor Juan Carlos Valdivia caminha em Zona Sur é perigoso. Em pouquíssimas variações de movimentos de câmera – em boa parte deles desenhando a mis en scène em todo o cenário lentamente -, ele analisa a situação social do país através do cotidiano de uma família rica de La Paz. Aparentemente estereotipados, os personagens, aos poucos, desenvolvem seus conflitos usando a mãe – coluna da casa – como ponto de partida.
A ausência da figura paterna e o pouco tempo para uma dedicação plena aos filhos não parecem incomodar Carola, dona da casa que não gosta muito de falar sobre seu trabalho. Silenciosamente, Valdivia desenha a importância da mãe como pilar de uma casa que não expurga problemas grosseiramente. Nenhuma. O grande dono da casa é Wilson, mordomo da casa, que há seis meses não recebe salário. O laço fraterno entre ele e os filhos de Carola parecem muito mais fortes.
Enquanto desenvolve esta análise, o mesmo aspecto técnico é repetido. Cenas em plano-sequência, onde câmera e personagens criam uma relação curiosa. Personagens perseguem a câmera. A câmera procura os personagens. É interessante, mas em certo momento do filme já estamos calejados e tal proposta vira previsibilidade.
A importância que Valdivia dá à linguagem implícita para desconstruir um cenário político é o grande pulo de Zona Sur. Um filme de impressões externas (câmera apenas como testemunha) sobre relações humanas, onde distintas visões sobre a vida compõem uma enorme distância entre as pessoas. Por mais próximas que elas estejam.
![]()
ZONA SUR (Idem, Bolívia, 2009) Direção: Juan Carlos Valdivia Roteiro: Juan Carlos Valdivia Elenco: Ninón Del Castilho, Pascual Loayza, Juan Pablo Koria, Mariana Vargas Duração: 108 min
Posts relacionados:
Tags: Críticas, Festival do Rio 2010




Tenho lido coisas muito boas sobre "Amores Imaginários".
Bom, é um filme que passa tranquilamente, mas, não espere mto.