Spike Lee x Martin Scorsese. David Cronenberg x Charlie Kaufman…

02 de dezembro por Pedro Tavares | 3 comentários
O cineasta Spike Lee (Faça A Coisa Certa, A Última Noite) entrevistou o mestre Martin Scorsese (Os Infiltrados, Taxi Driver). Já o canadense David Cronenberg (Senhores do Crime, A Mosca) esclareceu alguns pontos com Charlie Kaufman (Sinedóque, Nova Iorque e roteirista de filmes como Adaptação e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças).

Entrevistas retiradas do site Interview , que reuniu três grandes diretores e o estreante Charlie Kaufman, conhecido pelos seus trabalhos como roteirista. Traduzido por este que vos tecla.

MARTIN SCORSESE por Spike Lee.

SPIKE LEE: Estou aqui com o cara, Martin Scor-sese! Ele está trabalhando em seu novo filme, como está indo?

MARTIN SCORSESE: Está indo bem. Estamos no meio do primeiro corte.

SL: E qual é o nome do filme?
MS: Shutter Island.

SL: Estrelando?
MS: Leonardo Di Caprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Michelle Williams, Emily Mortimer, and Patricia Clarkson, entre outros.

SL: Você e o Leo tem uma boa química, baby.
MS: [Rindo] É, tem acontecido por alguns anos.

SL: Nos conte sobre o seu novo projeto.
MS: Ah, a Fundação de Cinema Mundial. Uma noite eu estava assistindo filmes de madrugada, acho que era no Showtime. E tinha um filme chamado Yeelen [1987]. O filme começou as 2h30 da manhã e a sua imagem era cativante, e eu acabei assistindo o filme inteiro. Aí, eu descobri que o filme era do diretor Souleymane Cissé e ele veio de Mali. Eu me animei bastante. Eu já havia assistindo filmes de Ousmane Sembène, que é de Senegal, ele foi o primeiro a colocar o cinema Africano no mapa, nos anos 60, mas eu nunca tinha visto algo como aquilo A poesia do filme, em tantos filmes que você assiste durante os anos, um inesperadamente te inspira tanto que faz que você continue a produzir filmes. Este foi um deles.

SL: Então, você está dizendo que Martin Scorsese, o pai do cinema, precisa de inspirações?
MS: Então, isso te deixa animado novamente. As vezes você pega pesado quando está filmando ou editando um filme, que você chega ao ponto de não saber se pode fazer isso novamente. Então você vê o trabalho de outra pessoa e se anima novamente. Então a fundação tem 20 anos e nós participamos da restauração de 475 filmes americanos. Alguns amigos me perguntaram se não seria legal trabalhar com filmes de outros continentes que não fossem a Ásia ou a Europa, pois na Itália ou na França, os arquivos estão lá, mas em Mali ou Burkina é difícil. Você já esteve lá?

SL: Ainda não.
MS: Nós fomos em Dezembro pra ver como é.

SL: Quantas vezes você já esteve na África?
MS :? Eu estive na África do Norte várias vezes. Essa foi a primeira vez que eu estive na parte sul do Saara. Mas obviamente, a música é a minha chave por lá.

SL :? Eu acho que você gosta mais de música do que cinema.
MS :? [Rindo] Eu também acho, música é a forma mais pura, não acha?

SL :? Você concorda comigo que os músicos são os maiores artistas?
MS :? Sim, eles são os maiores e mais puros. Digo, música vem totalmente da sua alma. Eu lembro de crescer ouvindo Jazz e Soul. Eu poderia tocar esses discos que meu pai tinha na década de 40 e essas imagens voltam para a minha mente. Eu sempre trabalhei com música pois as imagens voltam para mim.

SL: Seu pai era um cara engraçado.
MS :? É, eu sei. [rindo]E seu me olhar no espelho, se eu colocar os óculos e tirar a barba, eu fico igual.

SL: Eu também estou começando a ficar parecido com meu pai! [rindo] É assustador. O que Nova Iorque mudou para os tempos que você cresceu aqui?
MS: Eu morei na Rua Elizabeth entre a Prince e a Houston. A vizinhança realmente mudou. Você pagava 40 dólares de aluguel em 1952. Hoje, eu nem sei quanto um local como esse pode custar…

SL: Não existe mais uma casa em conta em Nova Iorque.
MS: Eu sei. Mas o que era legal era o Bowery. Lá ainda tinha Trens elevados. Era muito doido, meio noir, escuro e sinistro. Não havia chances de imaginar que um lugar como esse poderia ficar tão “chique”. De qualquer maneira eu gosto da idéia das restaurações dos velhos prédios de Nova Iorque ao invés de serem destruídos de vez. Eu amo a vizinhança pelo o que ela é. Ela ainda tem história. Está nas ruas e você pode sentir isso.

SL: Quando você nos dará a graça de filmar outro longa em Nova Iorque? Qual foi o último film que você fez aqui?
MS :? Eu fiz Gangues de Nova Iorque [2002] em Roma, O Aviador [2004] em Montreal e Los Angeles, Os Infiltrados [2006] e Shutter Island em Boston…

SL: O último foi Vivendo no Limite [1999]. Há 10 anos atrás.
MS: Serei sincero com você, metade d’Os Infiltrados foi filmado aqui. Todos os interiores e algo de externas. No Red Hook.

SL: Qual era o seu grau de amizade com Frank Sinatra?
MS :? [Gargalhando] Eu encontrei com ele duas vezes.

SL: Ele assistiu algum filme seu?
MS: Sim, eu falei com ele pelo telefone sobre Touro Indomável e ele colocou algumas músicas no filme. Ele ficou muito agradecido com isso. Ele nos deu autorização para usar duas músicas. Eu pedi três, mas ele disse “Não, duas.” Então eu o encontrei no backstage do Oscar e ele foi muito educado. Ele movia e a atmosfera movia com ele.

SL :? Eu tenho uma história engraçada sobre o Sinatra. Em Faça A Coisa Certa, a calçada da fama era de Italianos apenas. E uma das fotos queimadas era de Frank Sinatra. Então alguns filmes depois, eu estava fazendo Febre da Selva e eu queria usar três músicas do Sinatra. Ele não quis falar comigo. Eu falei com a filha dele, Tina. E tive que explicar tudo pra ela. Depois de um tempo, eles deixaram eu usar três músicas no filme.
MS :? É engraçado porquê ninguém havia feito isso antes. No meio de Faça A Coisa Certa, quando seu personagem diz “E o Frank Sinatra que se foda!”, ofendeu a todos.

SL: Se você olhar Faça A Coisa Certa, Febra da Selva e O Verão de Sam, existe uma relação entre Afro-Amerianos e Italo-Americanos. Eu sou Afro-Americano. Você é Italo-Americano. Nós dois crescemos aqui em Nova Iorque. O que há nos dois grupos para tanto dinamismo aqui em Nova Iorque? Será porque nós somos tão similares?
MS: Existe a similaridade, a cultura. Existe similaridade especialmente do jeito que os dois grupos moram perto um do outro e divide culturas.

SL: Especialmente no Sul do Bronx, onde o Pacino cresceu.
MS :? Era diferente de onde eu cresci. Lá era tudo Siciliano.

SL :? Roma Cidade Aberta é um dos seus filmes prediletos?
MS :? Eu gosto mais dele que Amarcord.

SL :? Você faria uma versão desse filme para Nova Iorque?
MS :? [Gargalhando] Não é uma má idéia. Eu acho que eu venho tentado fazer isso, como Caminhos Perigosos ou Taxi Driver, como Touro Indomável ou Gangues de Nova Iorque. Eu sou obcecado com essa cidade. Ela é tão marcante. Não há lugar como esse. Você viaja pelo mundo e não vê nada parecido. Quando você volta, você está animado. Nós andamos nas ruas e falamos com nós mesmos.

CHARLIE KAUFMAN por David Cronenberg.

DAVID CRONENBERG: É o caso clássico: Você é um escritor frustrado como seus roteiros tem sido adaptados por diretores e agora você finalmente dirigiu seu próprio filme. Como foi essa experiência pra você?
CHARLIE KAUFMAN: Eu acho que foi uma boa experiência pela maior parte das pessoas que eu entreguei meus roteiros. Foi mais para ver como eu faria sem a colaboração de ninguém. Ter o senso da pureza, do início até o fim. Eu gostei. É bem diferente que apenas escrever. Dirigir é uma experiência pragmática. Onde você tem que lidar com restrições de tempo e dinheiro que te força a tomar decisões que você não quer quando está escrevendo.

DC: E você achou tão diferente de como você imaginava?
CK: Não, foi bem parecido de como eu imaginei. Eu tenho um conhecimento de teatro, então tenho experiência com atores. Eu gosto de atores, eu já fui um. Não houveram grandes surpresas. Mas foi um grande aprendizado, pois eu tive que lidar com todos aspectos de todos os setores, sempre tomando decisões, com pessoas te perguntando coisas à todo momento. E você sabe, o tempo não ajuda muito.

DC: Este roteiro era pra outro diretor ou você sempre pensou em dirigir o filme?
CK: Na verdade, era de um diretor sim. O que aconteceu é que eu e Spike Jonze fomos convidados pela Sony Pictures para fazer um filme de terror. Nós trabalhamos com eles em Adaptação e eles gostariam de repetir a experiência. Então eu e Spike conversamos sobre idéias e sobre o que era assustador. Era importante ser assustador e fugir dos padrões de um filme de terror comum. Nós tivemos uma vaga idéia e direções eles confiaram tanto na gente que nem quiseram ouvir as idéias. Deram o sinal verde. Então eu comecei a escrever. E isso demora um tempo e esse não foi diferente. Dois anos, mais ou menos. Enquanto isso Spike começou a trabalhar em seu novo filme. Eu não quis esperar e perguntei a Spike se eu poderia dirigir. Ele concordou e foi o que aconteceu.

DC: Você está trabalhando em algum roteiro para algum diretor?
CK: Não, não estou. Na verdade meu plano é de dirigir novamente. É algo que planejo, dirigir meus próprios roteiros. Agora que eu dirigi, não estou interessado em fazer adaptações. Eu poderia escrever um roteiro para alguém, mas adaptar o trabalho de outra pessoa não me interessa mais. Como diretor eu tenho um pouco mais de autoridade, pois eu escrevi o roteiro, a história. Se fosse apenas o roteirista ou apenas adaptei, existirão um milhão de interpretações. Certamente em Sinedóque, Nova Iorque nós tivemos discussões e argumentos, mas eu tinha a autoridade.

DC: O que sem sombra de dúvidas é uma ilusão. [Rindo] Mas é verdade que as dinâmicas da equipe e atores são realmente muito interessantes, né? Parece uma operação militar as vezes.
CK: Existe muita burocracia, a maior surpresa talvez tenha sido da responsabilidade que eu tinha. As diferentes personalidades…Não é o meu tipo, e nunca foi a minha função antes de ser escritor. Eu tentei manter o humor sempre, mas eu sentia vontade de vômitar por simplesmente não conseguir engolir diversas situações. As vezes, era exaustivo, principalmente durante a décima-primeira hora de trabalho. E eu não poderia parar de jeito nenhum, algo que eu gosto de fazer.

DC: Porque quando você é um diretor, não pode ser desse jeito. As pessoas precisam ouvir isso de você. Eles precisam ser encorajadas e do teu suporte. Então você precisa achar generosidade de uma particularidade de um jeito estranho, que não é você na verdade.
CK: Eu sou pai de…bem, ela tem oito anos, mas ser pai ainda é uma experiência nova para mim. E eu acho que é o mesmo de tipo de coisa, eu penso como devo lidar com cada pessoa. Tenho que não deixar transparecer meu humor e minha ansiedade. Tipo, médico, sabe? Eu não tenho muito conhecimento sobre isso, mas eu tive que aprender durante as filmagens de Sinedóque, Nova Iorque. O que foi gratificante, pois eu não tenho relações sobre o jeito que eu deveria conforta-los ou que eles venham até a mim para isso apenas.

DC: Eu já disse que ser pai é uma boa preparação para ser diretor, mas entenderam que eu penso que os atores são imaturos, crianças.
CK: E isso não é verdade. Quando me encontrei nessa situação, eu tentei ter sucesso. E quando isso deu certo, quando vi que a comunicação obteve resultados com a equipe, me senti muito bem.

Posts relacionados:

Entrevista com Chris Fuller
Spike Jonze vs. Thurston Moore
Entrevista: Malu de Martino

Tags:

3 comments

  1. Mayara Montenegro

    É, às vezes poucos anos parecem milhões. Gostei do teu site.

  2. I am select your site how one of my favorites sites. Your model is good and single.

Leave a comment


Copyright © 2011 Cinema O Rama

Tema desenvolvido por João Ximenes - Powered by Wordpress

Assine o RSS