Ódiquê? / O Homem que desafiou o diabo

21 de fevereiro por Pedro Tavares | 1 comentário
A escolha de simplesmente eliminar qualquer carga dramática, no sentido de se aprofundar na vida dos personagens ou criar um romance para cada personagem, faz de Ódiquê? um longa diferente para retratar a tão falada juventude perdida. A história consiste em três amigos de classe média da zona sul do Rio de Janeiro que não tem dinheiro para passar o carnaval em Arraial D’ajuda, pois o dinheiro logicamente foi usado em esbórnias ou drogas e resolvem armar um sequestro para conseguir a grana com a ajuda de um filho de deputado para colocar panos quentes na história. Sim, sem se aprofundar muito. Rápido e rasteiro.

O pulo do gato da história é a forma que é contada: Ela é frenética e muito natural, com muitos ensaios, mas dando a entender que os diálogos não foram escritos anteriormente, apenas uma idéia deles. Sendo assim, uma saraivada de gírias e palavrões são disparadas pelos atores, que parecem vivenciar aquilo realmente (talvez por estar perto da realidade deles?). Esse dinamismo, faz que o filme passe batido, mesmo com personagens tão rasos. Ponto para a direção. Enquanto a história vai se complicando para os garotos e desespero vai tomando conta, a piedade não chega. Afinal ninguém quer saber se eles tem uma história por trás da atitude.

Aliás, piedade é algo que não existe mesmo para os garotos. Cenas fortes e aparentemente avulsas, sem justificativa aparente fazem ponte para outra maldade. Mas é assim que funciona a “juventude perdida”. Mas onde isso vai parar? O longa nos responde e a resposta não é tão feliz assim. A primeira exibição de Ódiquê? foi no Festival do Rio em 2004. Até hoje não exibe uma versão em DVD do longa(NR: Acabei de voltar da locadora e chegou a cópia em DVD do filme), mas o filme está na programação do Canal Brasil. (canal 66 da NET)



Que nós já estamos cansados de assistir filmes que se passam no sertão brasileiro, isso é claro. Quando não é para explorar a pobreza em algum drama lento da globo, é para abusar do humor nordestino. O Homem que desafiou o Diabo, usa o humor, lógicamente, mas de uma forma diferente da que estamos habituados a ver atualmente no cinema nacional. Se aproximando diversas vezes da pornoxanxada, mesclando a baixaria do gênero com um humor mais água com açúcar, o resultado é positivo. Marcos Palmeira está muito bem no papel de Araújo e posteriormente Ojuara. Araújo um rapaz submisso e tarado se transforma e Ojuara, um “cabra arretado” que realmente desafia o tinhoso não só para defender seus princípios, mas como sua amada também.

O interessante do longe é a proximidade de gêneros que o cinema havia esquecido, pois posteriormente significou a decadência dele no país. A enxurrada de palavrões, as baixarias (sempre com segundas intenções no ar) e as situações cômicas que usam o sertão como uma luva para o desenvolver da história. Tecnicamente é um filme competente e faz bem o seu papel. O filme faz papel de blockbuster e de um filme mais alternativo pela inteligência que o roteiro é levado, pelos diálogos que oscilam dos personagens que soltam versos ao mais xulo palavrão na hora certa.

A ingênuidade e a cabeça fechada dos personagens são deixadas de lado pouco á pouco, largando a hipocrisia para enfrentar suas vontades e deixar suas opinões marcadas, tudo com o humor já citado. É genuino. É nacional até a unha. Do Brasil, para brasileiros. Tem a cultura, religião, prova e verso, piadas e costumes da terra tupiniquim.


“Ódiquê?” BRA, 2004. Estrelando: Cauã Raymond, Dudu Azevedo, Cássia Kiss. Diretor: Felipe Joffily


“O Homem que Desafiou o Diabo” BRA, 2007. Estrelando: Marcos Palmeira, Flavia Alessandra. Antônio Pitanga. Direção: Moacyr Góes.

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