09.03.10

Março nas Locadoras

por Pedro Tavares

2012 (Idem, EUA, 2009) de Roland Emmerich

Roland Emmerich gosta mesmo de destruir o mundo. Envolto de clichês e uma pieguice sem fim, o diretor chega a apontar uma possível teoria de conspiração do governo americano no meio de terremotos e maremotos e até consegue entreter aos trancos e barrancos, mas não se arrisca o bastante para tirar o clichê master de filmes deste gênero que é a pose heróica dos norte-americanos.

2star

CARO SR. HORTEN (O’Horten, Noruega/Alemanha/França, 2007) de Bent Hamer

Uma reflexão sobre o tempo e conseqüentemente, a morte. A trama é distante e introspectiva o suficiente para deixar a narrativa frouxa e afastada de seus personagens, mesmo com uma bela plástica. Talvez tenha sido a intenção do diretor Bent Hammer para acentuar esse sentimento de vazio, mas para o espectador, cria-se um intenso embate contra o tédio.

2half

SEMPRE AO SEU LADO (Hachiko: A Dog Story, EUA, 2009) de Lasse Hallstrom

Nada como juntar o galã Richard Gere e um expressivo cãozinho para arrancar lágrimas em uma trama centrada na lealdade que não necessita de palavras para ser selada e vai muito além da morte. Sempre Ao Seu Lado apela para o envolvimento total de sentimentos entre protagonista e espectador, com ajuda de todos os elementos disponíveis nas mãos de Lasse Hallstrom. E funciona muito bem.

4star

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JULIE & JULIA (Idem, EUA, 2009) de Nora Ephron

A adaptação dos livros escritos por Julie Powell e Julia Child nada mais é que um conto sobre como moldar uma paixão através do tempo, usando as duas protagonistas como colunas narrativas. Fiel aos detalhes, o filme de Nora Ephron é construído com os dois pés fincados em clichês de um formato que impossibilita tirar algo a mais de uma boa história e da vantagem de ter a grande Meryl Streep no elenco.

2star

COCO ANTES DE CHANEL (Coco Avant Chanel, França, 2009) de Anne Fontaine

Toda importância e ousadia de Coco Chanel para o mundo da moda é esquecida para acompanharmos um piegas conto de amor, sem novidades construtivas ou um subtexto que realce o espírito revolucionário da estilista. Anne Fontaine entrega uma história mastigada que em poucos momentos lembra quem Coco realmente foi para o estilismo para se tornar um romance de segunda.

1star

GOODBYE SOLO (Idem, EUA, 2008) de Ramin Bahrani

Uma trama sobre se abrir para novas possibilidades e recomeçar a vida mesmo com a pulsante auto-rejeição. É um tema batido no cinema e que necessita de bons macetes para não cair na obviedade. Goodbye Solo tem o contratempo de não se prender em nenhum ponto que sustente o ritmo do filme e eleve tal sensação.

2half

Outros lançamentos do mês de março: Embarque Imediato, Lua Nova, Apenas o Fim, À Procura de Eric, O Solista, O Caçador, Atividade Paranormal, Gigante

08.03.10

Os vencedores do Oscar 2010

por Pedro Tavares

cameron

Em 2004, quando Cidade de Deus foi indicado a quatro categorias do Oscar, sabíamos que Fernando Meirelles teria pequenas chances ao enfrentar o monstro Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei de Peter Jackson, indicado a onze categorias. Seis anos mais tarde, Avatar se torna o novo fenômeno cinematográfico, bate recordes de bilheterias e reinventa a forma de se ver a sétima arte. Mas afinal, toda tecnologia pode ser colocada em cheque quando a mensagem não é das melhores? A academia parece ter mudado seu ponto de vista e nos respondeu que sim. Os prêmios de Melhor Filme e Melhor Diretor para Kathryn Bigelow (primeira mulher a receber o prêmio de Melhor Diretor), diretora do grande vencedor da noite Guerra ao Terror prova que o entretenimento não está apenas em shows pirotécnicos . A beleza de uma obra é condensada em boa parte, no seu texto. O filme de Bigelow que recebeu mais de 70 prêmios nesta temporada repetiu a dose e foi o grande campeão desta edição do Oscar, ganhando seis estatuetas.

A cerimônia deste ano foi mais dinâmica e com boas surpresas. A maior delas provavelmente o prêmio de Melhor Diretor que era dado como certo para James Cameron por todo seu trabalho em Avatar, que levou o prêmio de melhor fotografia, contrariando a expectativa que era para A Fita Branca. O filme de Haneke também era dado como vencedor na categoria Melhor Filme Estrangeiro, mas acabou perdendo para o excelente filme argentino O Segredo de Seus Olhos. Tivemos uma bonita (porém gratuita) homenagem ao gênero horror, que uniu Nosferatu, Jogos Mortais, O Iluminado e Crepúsculo em um gênero (!). Falando em horror, Atividade Paranormal ganhou uma hilária paródia pelos apresentadores Steve Martin e Alec Baldwin. Ao receber o prêmio de melhor edição por Guerra ao Terror, Bob Murawski e Chris Innis repetiram a mensagem do e-mail enviado pelo produtor do filme e que causou uma polêmica gigantesca, mas escaparam da saia justa. Nos discursos (ou declarações de amor, como preferir) para os indicados de melhor ator e atriz, a academia prezou pela aproximação do público com os artistas de certa forma, como fez no ano passado. E funcionou novamente. No geral, a festa do cinema foi boa e conseguiu deixar o ranço da edição de 2009.

Vamos aos vencedores:

MELHOR FILME

Guerra ao Terror

MELHOR DIRETOR

Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror)

MELHOR ATOR

Jeff Bridges (Coração Louco)

MELHOR ATRIZ

Sandra Bullock (Um Sonho Possível)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Christoph Waltz (Bastardos Inglórios)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Mo’Nique (Preciosa)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Preciosa

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Guerra ao Terror

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

Up – Altas Aventuras

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

O Segredo de Seus Olhos

MELHOR EDIÇÃO

Guerra ao Terror

MELHOR FOTOGRAFIA

Avatar

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

Avatar

MELHOR FIGURINO

A Jovem Rainha Vitória

MELHOR MAQUIAGEM

Star Trek

MELHOR TRILHA SONORA

Up – Altas Aventuras

MELHOR CANÇÃO

The Weary Kind (Coração Louco)

MELHOR MIXAGEM E EDIÇÃO DE SOM

Guerra ao Terror

EFEITOS VISUAIS

Avatar

MELHOR DOCUMENTÁRIO

The Cove

04.03.10

Apostas para o Oscar 2010

por Pedro Tavares

Público, crítica ou rentabilidade? O que é mais relevante para a academia? Através de seus seis mil ela poderá nos responder essa pergunta no próximo domingo, quando acontece a cerimônia do Oscar. Separo dessa forma, em três segmentos, pois as obras favoritas ao prêmio máximo da noite representam explicitamente esses adjetivos. São elas: Bastardos Inglórios de Quentin Tarantino, Guerra ao Terror de Kathryn Bigelow e Avatar de James Cameron. Eles disputarão os prêmios de Melhor Filme e Melhor Diretor e cada um tem seu argumento para levar a estatueta.

A obra de Tarantino foi aclamada pelo público e reinou absoluto nas listas dos melhores do ano em blogs especializados. Já o filme de Kathryn Bigelow levou a maior parte dos prêmios de associações. Aqui no Brasil, o peso das nove indicações ao Oscar fez o filme aparecer nas programações dos cinemas, mesmo com o filme disponível nas locadoras há muitos meses. Na última semana, o produtor do filme Nicolas Chartier quase colocou tudo a perder ao enviar e-mails pedindos votos a favor de Guerra ao Terror alegando ser uma produção independente. O nada independente James Cameron também recebeu nove indicações por Avatar, bateu recordes de bilheteria e tem a vantagem de ter levado o Globo de Ouro nas categorias principais. Mas é importante lembrar que o Oscar sempre nos surpreende. Segue abaixo minhas apostas e comentários sobre as principais categorias da cerimônia.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE


Anna Kendrick e Vera Farmiga estão bem em Amor Sem Escalas, mas não o bastante para bater Maggie Gyllenhall por sua atuação em Coração Louco e muito menos a grande favorita Mo’Nique por Preciosa. Ela ganhou merecidamente  o Globo de Ouro e deve repetir a dose no Oscar.

MELHOR ATOR COADJUVANTE


Christoph Waltz é o favorito pelo seu show em Bastardos Inglórios que o rendeu o Globo de Ouro na mesma categoria. Mas como o Oscar sempre nos surpreende, Stanley Tucci pode levar a estatueta por ser a melhor coisa de Um Olhar do Paraíso.

MELHOR ATRIZ


Mesmo sem o favoritismo habitual, Helen Mirren e Meryl Streep não devem ser subestimadas de forma alguma, mas as expectativas ficam entre a consagração da estreante Gabourey Sidibe por Preciosa ou a glória de Sandra Bullock por Um Sonho Possível.

MELHOR ATOR


Jeff Bridges é o Mickey Rourke deste ano. Não só pela proximidade de Bad Blake em Coração Louco e Randy “The Ram” Robinson em O Lutador, mas por Bridges ter levado o Globo de Ouro e ser franco favorito para levar a estatueta, repetindo a expectativa que cercava Rourke em 2009. Vale lembrar que Sean Penn deixou Rourke de mãos vazias no ano passado, reacendendo as chances de Colin Firth por Direito de Amar e Morgan Freeman por Invictus.

MELHOR ANIMAÇÃO


A emocionante aventura de Carl Frederickesn e do escoteiro Russel em Up – Altas Aventuras têm cinco indicações ao Oscar – incluindo Melhor Filme – e esse fato já faz do filme o grande favorito. Caso aconteça alguma surpresa, a estatueta deve parar nas mãos de Wes Anderson pelo ótimo O Fantástico Sr. Raposo.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO


O nível dos indicados a este prêmio é impressionante. Muitos dão como certa a vitória de A Fita Branca, filme impactante de Michael Haneke, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Mas longas como O Profeta (vencedor do Festival de Londres), A Teta Assustada (vencedor em Berlim) e o belíssimo O Segredo de Seus Olhos tem a potência necessária para ofuscar o brilho do filme de Haneke.

MELHOR DIRETOR


James Cameron passou dez anos imerso na criação de Avatar e o resultado impressiona, esteticamente falando. O que já é o bastante para garantir a estatueta para o diretor. Cameron pode perder o prêmio para sua ex-esposa Kathryn Bigelow que fez uma desconstrução à flor da pele do medo em Guerra ao Terror. Quentin Tarantino pode ser considerado um azarão caso ganhe o prêmio, mas não deve ser deixado de lado nesta disputa ao colocar a segunda guerra mundial de cabeça pra baixo em Bastardos Inglórios.

MELHOR FILME


Dos dez indicados, os meus favoritos seriam Um Homem Sério ou Bastardos Inglórios, pelos belos exemplos de como desconcertar uma platéia. Mas acredito que a sensibilidade de Kathryn Bigelow em Guerra ao Terror desbanque todo aparato tecnológico de James Cameron em Avatar.

02.03.10

Coração Louco

por Pedro Tavares

Adaptado do livro homônimo de Thomas Cobb, Coração Louco é um filme de detalhes, que apresenta seus conflitos de maneira clara, mas os desenvolve de forma abstrata. A coluna da trama é a frustração. Dela surgem diversos nichos sentimentais do tal coração de Bad Blake, um músico de pequeno porte na cena country, interpretado com maestria por Jeff Bridges.

Como um diário de turnê, o filme se assume como um road movie que enquanto registra a dança dos dias, também exibe a consciente autodestruição de Blake. A direção do estreante de Scott Cooper surpreende por ser minimalista. Cooper se limita até em usar elementos de cena justificáveis, uma sabia decisão para salientar a explosão sentimental em momentos decisivos para a trama.

Sem verborragias ou insinuações maiores, o filme de Cooper prefere mostrar como Blake mantém uma aparência tranqüila, mesmo que sua vida seja decadente. A incansável mente do músico é desconstruída com grande sensibilidade pelo o que existe em seu envolto.

A mente de Blake é explosiva, pois 57 anos se passaram e ele se vê sem um porto seguro. A incapacidade de lidar com suas frustrações deixou rastros pela vida do músico e de quem está por perto. O alarme havia tocado na sua casa, ou seja, na estrada. Nela, foram deixados sonhos, humilhações, a saúde e até um filho. Coração Louco também é sobre redenção; sobre dar alguns passos para trás e recomeçar.

4star

CORAÇÃO LOUCO (Crazy Heart, EUA, 2009) Direção: Scott Cooper Roteiro: Scott Cooper Elenco: Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal, Colin Farrel, Jack Nation Duração: 120 min

25.02.10

O Segredo de Seus Olhos

por Pedro Tavares

Alguns eventos são devastadores em nossas vidas. Deixam tantos rastros que por vezes é impossível viver o presente. Mas para deixarmos o passado literalmente para trás, enfrentar seus fantasmas seja a melhor maneira. A premissa que O Segredo de Seus Olhos carregava era de um filme sobre um acerto de contas, mas ao fragmentar o tempo na narrativa não apenas para registrar a redenção de um homem, mas para discutir leis e valores dentro de um thriller, a adaptação do romance de Eduardo Sacheri ganha novas interpretações.

O diretor Juan José Campanella bebe da decadência característica dos personagens dos filmes noir e do ritmo de filmes de ação americanos para traçar uma trama completa e claustrofóbica. Nela, a pena de morte é citada em alguns momentos, mas é atrelada a cada quadro do filme que também discute o abismo entre as palavras “existência” e “vivência” com bons diálogos e movimentos de câmera precisos.

Mas Campanella se importou apenas com o lado ativo. Por isso, O Segredo de Seus Olhos é um filme que se preocupa em condensar ritmo e intensidade dramática, com subtexto pesado, mas não menos instigante que o thriller que digerimos. Para viver, passamos por momentos extremos, intensos, onde tomamos decisões precipitadas e colhemos seus frutos. Existe o tempo para o arrependimento e a busca de um novo caminho, para outros, a existência torna-se um martírio por viver cativo das conseqüências de seus atos.

Em certo momento do filme, a torcida grita “academia” diversas vezes em um estádio de futebol, já profetizando a indicação do filme ao prêmio de melhor filme estrangeiro na cerimônia do Oscar. Coincidência ou não, o filme tem tudo que a academia gosta: é um filme que agrada a quem digere uma obra aos poucos de forma contemplativa (por enriquecer o subtexto e suas tramas paralelas) e também aqueles que procuram um filme como uma diversão escapista (um thriller bem amarrado e romanceado). Pena, que no meio do caminho, havia uma fita branca…

4star

O SEGREDO DE SEUS OLHOS (El Secreto de Sus Ojos, Argentina/Espanha, 2009) Direção: Juan José Campanella Roteiro: Juan José Campanella Elenco: Ricardo Darín, Guillermo Francella, Soledad Villamil, Pablo Rago Duração: 127 min

22.02.10

Um Homem Sério

por Pedro Tavares

um homem sério

Dizer que o trabalho dos irmãos Coen é sinônimo de qualidade chega a ser óbvio, mas em Um Homem Sério arrisco a dizer que os diretores chegaram ao auge de suas carreiras. Neste conto sobre a passividade totalmente revestido de deboches, Joel e Ethan Coen conduzem o longa com tamanha maestria que fica impossível não se impressionar com a plástica do filme. Sim, a plástica é incrível, mas o que me levou a fazer tal afirmação no início do texto é como eles conseguiram amarrar a beleza e o texto e justificá-los para logo depois tirar sarro da linguagem do cinema.

Joel e Ethan podem gozar de tais mecanismos, mas o alvo principal é de quem consome esta linguagem. Eles fragmentam conflitos e até desistem de contar histórias, pois se for preciso, eles darão uma justificativa aleatória para lembrar que eles podem fazer o que bem entendem. O mais incrível dessa gigantesca alfinetada é que ela é elaborada e executada no silêncio e usam o protagonista Larry Gopnik, intepretado por Michael Stuhlbarg, como um espelho de nossa passividade.

Gopnik é um judeu que tenta seguir normas e manter a paz ao seu redor, mas serve como um receptor de desgraças ao se relacionar com manipuladores a todo instante. Se Gopnik propositalmente lembra a jornada de Jesus Cristo, os irmãos Coen usam a manipulação para representar o princípio básico da linguagem audiovisual. A história de Gopnik dá margem para uma narrativa dinâmica, que não deixa imunes valores e costumes da sociedade que são exaltados pela direção de Joel e Ethan. É assustadora a composição de quadros e movimentos de câmera para acentuar emoções.

Toda beleza e sarcasmo de Um Homem Sério são necessários para uma contemplação livre, pois metáforas são freqüentes na trama. A maior e mais brilhante delas, na última cena do filme, é para lembrar que no cinema, Deus está sentado na cadeira de diretor.

5star

UM HOMEM SÉRIO (A Serious Man, EUA, 2009) Direção: Joel e Ethan Coen Roteiro: Joel e Ethan Coen Elenco: Mark Stuhlbarg, Richard Kind, Sari Lennick, Fred Melamed Duração: 106 min

20.02.10

Sessão Naftalina: Monstros (1932)

por Pedro Tavares

freaks

Texto por Natália Alonso

Olhando a foto mais atentamente podemos observar coisas fora do padrão de ‘normalidade’, correto? Anões (que chegam a 80cm de altura), gêmeas siamesas, pessoas sem braços, pernas, portadoras de microcefalia e outras diversas deformidades. “Freaks” é assim que Tod Browning (Drácula, 1931) os chamou quando dirigiu a obra em 1932, é assim, que na vida real as pessoas os nomeavam, o que ocorre até os dias atuais.

Em uma das películas mais perturbadoras do cinema, Browning leva às telas a estória de um circo de atrações bizarras. Viam-se constantemente pessoas ‘diferentes’ serem expostas em feiras, eventos e participando de atrações circenses. Um caso famoso é o das Quíntuplas “Dionne”, nascidas no Canadá em 1934 e usadas pelos próprios pais para fins monetários.

O enredo se passa no circo, a trapezista Cleópatra (Olga Blacanova), que não possui nenhuma deficiência, juntamente com Hércules (Henry Victor), planeja aplicar um golpe em Hans (Harry Earles), ao descobrir que o anão possui uma grande fortuna. Ao notar que Hans a presenteia e pouco a pouco se apaixona por ela, a trapezista se aproveita da situação e casa-se com o milionário. Porém, o anão percebe o grande erro que cometeu no jantar matrimonial, o qual as ‘aberrações’ a convidam para unir-se a eles, na famosa cena “We accept her, one of us”* e Cleópatra, além de desprezá-los, beija Hércules na frente de todos. Após tentativa de fazer com que o rico anão adoeça envenenando-o, e descoberta pelos protagonistas da bizarra atração do circo, ela acaba sendo vítima de uma vingança, pois os “Freaks” seguiam um “código interno de proteção” entre si.

O filme, na época censurado e banido de muitos estados norte-americanos, não se trata apenas da exposição dessas pessoas que tiveram o infortúnio de terem nascido ‘diferentes’ das outras, está acima disso, é o drama, é a humanização de seres que, na maioria das vezes, são tratados como se não fossem humanos. Tod, infelizmente, mal interpretado pela maioria, que tinha a ideia de que o diretor queria explorar essas pessoas excepcionais, não obteve sucesso em seus longas seguintes.

A película não é marcada por nenhuma atuação ou cena brilhante, artística e cinematograficamente falando não chega a ser uma obra de arte, tampouco possui qualidade memorável, analisando o filme com esses olhos, estaríamos falando de algo ordinário, que não merece o destaque e nem o alarde feito sobre. Mas a forma com que o assunto é abordado, pessoas fadadas a viverem no anonimato ou a serem julgadas pelos olhos saltados de milhares de pessoas que visitavam exposições que elas viriam a participar e que em “Freaks” são protagonistas da estória.

Infelizmente, assim como todas as coisas que fogem do padrão estipulado pela sociedade, “Monstros” foi considerado impróprio na década de 30 e até hoje é visto como um dos filmes mais bizarros da história do cinema. Obviamente, àqueles que estão habituados a verem verdadeiras ‘criaturas’, como vampiros e afins, serem representadas no cinema por pós-adolescentes bem afeiçoados, se impressionará facilmente ao ver humanos com aparências esdrúxulas.

Um clássico, quem aprecia a sétima arte jamais deve se prender apenas aos filmes mais premiados e com boas críticas, nada como um filme de 1932 que retrata comportamentos que as pessoas terão para sempre.

Nos extras do DVD, podemos ainda, encontrar as fotos e a estória de cada “freak”. Harry Earles (Hans) é irmão da outra anã que aparece na película, Daysi Earles (Frieda) e possuem mais duas irmãs também anãs, os quatro eram chamados de “The Doll Family”. Schlitze, um dos portadores de microcefalia, participou de outros filmes e viveu até os 70 anos de idade.

MONSTROS (Freaks, EUA, 1932) Direção: Tod Browning Roteiro: Clarence Aaron ‘Tod’ Robbins Elenco: Olga Baclanova, Henry Victor, Harry Earles Duração: 64 min

18.02.10

Educação

por Pedro Tavares

Não é de hoje que o cinema questiona os moldes da vida ideal imposta pela sociedade. A diretora Lone Scherfig não coloca explosivos conflitos para buscar uma óbvia lição de moral em Educação, pelo contrário, ao longo do filme ela faz um caminho oposto e deixa claro que sua intenção é de mostrar com certa indiferença um momento específico da vida que pode trazer consequências para a protagonista Jenny por tomar uma decisão na qual os jovens não têm maturidade necessária para tal e mostrar o desvio de um caminho aparentemente perfeito.

Até onde um jovem pode alimentar-se de desejos que vão além dos costumes de um cidadão padrão? As incógnitas tão batidas em filmes deste segmento são logo eliminadas por Lone, que novamente usa a indiferença à conflitos e resoluções surpreendentes, pois Educação é exatamente sobre isso: subverter valores da dramatização. O filme não impõe um crescente envolvimento do espectador. No lugar de macetes comuns do cinema, ficam as sugestões dentro de uma história linear, mas que ainda se agarra em clichês narrativos para caminhar.

Dentro desses clichês, a trama desbrava um novo mundo para Jenny e deixa brechas desnecessárias para que a previsibilidade transpareça mais que transição da adolescência para a vida adulta. Lone Scherfig conseguiu mesmo com tropeços exaltar sua intenção maior: manifestar-se sobre os limites de idade e maturidade para se aventurar e se “educar” por conta própria, de colher e plantar e saber as consequências de cada ato. De aprender pela dor e pelo amor.

O filme estreia nesta sexta-feira.

3star

EDUCAÇÃO (An Education, Inglaterra, 2009) Direção: Lone Scherfig Roteiro: Nick Hornby Elenco: Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Olivia Williams, Alfred Molina Duração: 95 min

17.02.10

Recomendação da Casa #54: E o Buda Desabou de Vergonha

por Pedro Tavares

“É preciso morrer para viver livre”.

Uma brutal metáfora sobre a imposição política e a cultura de guerra que condiciona crianças a um estado de tensão desnecessário e involuntariamente  criam traumas que só a inocência e a pureza podem apagar. E o Buda Desabou de Vergonha é um apelo por paz sim, mas antes de tudo é uma singela subversão de valores de uma nação que vive em situações extremas.

E O BUDA DESABOU DE VERGONHA (Buda As Sharm Foru Rikht, Irã, 2007) de Hana Makhmalbaf.

15.02.10

Um Olhar do Paraíso

por Pedro Tavares

Provavelmente nenhum outro tema dê tantas opções para sua desconstrução quanto a morte. Em Um Olhar do Paraíso, Peter Jackson explora a ligação sobrenatural de Susie, uma menina brutalmente assassinada e sua família, mas não sabe bem por qual via seguir para concretizar uma visão sobre o luto e a perda na adaptação da obra de Alice Sebold.

Jackson separa sua trama em dois núcleos de maneira tão brutal que ambos perdem forças. O drama psicológico vivido pela família de Susie tem seus fios narrativos presos à tensão, no qual o diretor chega a criar sequências que remetem ao velho Peter Jackson de Fome Animal. Quando as câmeras se aproximam de Susie, a trama ganha plástica fantasiosa para apresentar o óbvio, que é um novo, mas nada convincente mundo. Dessa vez, nos aproximamos de Jackson conhecido pela trilogia Senhor dos Anéis.

A equivalência desses dois extremos é irregular. Buracos são deixados propositalmente para que esses mundos se completem de forma lírica, mas não evita a pieguice, pois logo onde o filme teria sua força maior – que é a de explorar o desconhecido -, é onde o filme tem suas maiores falhas. A força que a trama onde Mark Wahlberg e Rachel Weisz protagonizam possui é absurdamente superior à tentativa de Jackson de fazer um paralelo da vida e a morte para desconstruir-las de forma contemplativa com toda ajuda da pós-produção.

Mas seria um exagero dizer que Um Olhar do Paraíso é uma sucessão de erros. O filme levanta a discussão sobre males contemporâneos e o valor da vida. Sendo mais claro, o filme acerta justamente quando Jackson resolve largar as amarras do peso de seu passado e busca inovar na sua maneira de fazer cinema.

O filme entra em cartaz na próxima sexta-feira.

2half

UM OLHAR DO PARAÍSO (The Lovely Bones, EUA/Inglaterra/Nova Zelândia, 2009) Direção: Peter Jackson Roteiro: Fran Walsh, Phillipa Boyens, Peter Jackson Elenco: Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Saoirse Ronan, Stanley Tucci Duração: 135 min

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